Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Nem todo mundo que se diz anarquista recusa o voto da mesma maneira, e isso não é fraqueza. É sinal de que o anarquismo nunca foi uma doutrina rígida, mas um campo de debates onde a liberdade de pensar é levada a sério. Ao longo de mais de um século e meio de história, diferentes vertentes anarquistas construíram posições distintas sobre o que fazer com as eleições, e conhecer essas diferenças ajuda a entender que a recusa à urna não é um gesto único, mas um espectro de escolhas.

As vertentes insurrecionistas, por exemplo, tendem a ver no voto uma contaminação que precisa ser evitada a todo custo. Para quem pensa nessa linha, participar do processo eleitoral, mesmo que para anular o voto, é reconhecer uma legitimidade que não existe. A ação direta, a propaganda pelo exemplo e o confronto com as estruturas de poder são considerados os únicos caminhos válidos. O voto nulo, nessa leitura, ainda é um voto: é ir até a urna, é passar pela cabine, é participar do ritual. E o ritual, por si só, já fortalece o que se pretende destruir. A aposta está na ruptura imediata, na greve geral como arma revolucionária, na sabotagem e na insurreição como formas de derrubar o Estado, não de negociar com ele.

Já as vertentes sindicalistas, especialmente aquelas influenciadas pelo anarco-sindicalismo histórico, costumavam adotar uma postura mais pragmática. A recusa ao voto não era negada, mas era vista como parte de uma estratégia maior, centrada na organização dos trabalhadores e das trabalhadoras nos locais de trabalho. O sindicato, nessa visão, é a célula da sociedade futura, e a luta cotidiana por melhores condições é a própria escola da autogestão. O boicote eleitoral era mantido como princípio, mas o foco principal estava na força organizada da classe trabalhadora, não na negação individual às urnas. A eleição era irrelevante porque o poder real estava nas fábricas, nos portos, nas ferrovias. Mudar o governo não mudava a relação de exploração; mudar a relação de exploração exigia organização direta.

As vertentes anarcocomunistas, por sua vez, costumam pousar em uma posição que dialoga com ambas sem se confundir com nenhuma. A recusa ao voto é mantida como princípio ético, mas sem a rigidez insurrecionista que transforma toda participação em traição. A aposta está na construção de comunidades autônomas, na economia solidária, na autogestão dos bens comuns. O voto nulo é aceito como manifestação de insatisfação, desde que não se confunda com ação política suficiente. Para essa vertente, o importante não é tanto o gesto isolado na cabine eleitoral, mas o trabalho de base, a formação de coletivos, a criação de alternativas concretas de vida que demonstrem, no dia a dia, que é possível viver sem Estado e sem patrões.

Essas posições, é claro, se misturam e se influenciam. Não há fronteiras rígidas entre elas, e muitas pessoas transitam de uma para outra ao longo da vida. O que une todas, no entanto, é uma convicção comum: a de que a transformação social não passa pela delegação do poder a representantes, mas pela construção de formas de organização onde cada pessoa seja sujeito ativo das decisões que afetam sua vida. Anular o voto, nesse panorama, é apenas uma das expressões possíveis dessa convicção. Não é o gesto mais importante, nem o mais revolucionário. É um sinal, entre muitos outros, de que outro caminho é possível. E é a soma desses sinais, espalhados pelas fábricas, pelos bairros, pelas ocupações e pelas ruas, que constrói a força capaz de transformar o mundo.

O que divide quem recusa
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