
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Imagine que você contrata alguém para cuidar da sua casa enquanto viaja. Ao voltar, encontra o imóvel abandonado, as contas não pagas e o dinheiro que você deixou desaparecido. Quando questiona essa pessoa, ela responde que agiu no seu melhor interesse, que as circunstâncias eram complexas demais para você compreender e que, afinal, você mesmo a escolheu para ocupar aquela função. A sensação de impotência, de ter delegado algo essencial e descoberto que sua confiança foi traída, não é muito diferente daquela experimentada por milhões de pessoas a cada ciclo eleitoral. A diferença é que, no caso do Estado, essa separação entre quem decide e quem é governado não constitui uma exceção: ela faz parte do próprio funcionamento institucional e se repete como algo natural.
A representação política oferece uma promessa sedutora: você escolhe alguém para falar por você, para decidir em seu nome, para ocupar espaços nos quais você não consegue estar. Em troca, essa pessoa deveria zelar pelos seus interesses e traduzir suas necessidades em leis e políticas públicas. Mas há uma distância que se abre nesse processo. Quem chega ao parlamento ou ao palácio de governo passa a atuar em um ambiente com outras rotinas, outros interlocutores, outras pressões e outras possibilidades de acesso ao poder. Os corredores das instituições não são frequentados apenas pelos eleitores que conferiram o mandato, mas também por grupos organizados que dispõem de recursos e influência, como lobistas, empresários, setores da mídia e organizações corporativas. O representante, assim, pode progressivamente se afastar daqueles que deveria representar e passar a responder, antes de tudo, à lógica própria da instituição, aos interesses que a cercam ou à necessidade de preservar sua posição. A distância entre a vida de quem governa e a vida de quem é governado pode então se transformar em um abismo difícil de transpor.
Há quem diga que esse abismo pode ser reduzido com mais transparência, fiscalização e participação popular nas decisões. São propostas legítimas e podem limitar abusos, ampliar o controle público e tornar determinadas instituições mais abertas. Mas elas não eliminam necessariamente o problema de fundo. A alienação política não decorre apenas de falhas administrativas ou da desonestidade de determinados representantes; ela também está relacionada à própria lógica da delegação. Quando você entrega a outra pessoa a autoridade para decidir em seu nome, deixa de ocupar diretamente o centro do processo decisório. Sua vontade passa a ser interpretada, filtrada e convertida em decisões por uma estrutura separada da sua experiência cotidiana. Assembleias, audiências públicas e consultas populares podem ampliar a participação, mas, quando permanecem subordinadas a uma esfera especializada de decisão, não eliminam completamente essa separação. O poder pode até ser fiscalizado, parcialmente limitado ou compartilhado em determinados momentos, mas a capacidade de definir prioridades, estabelecer limites e determinar o que é politicamente possível continua concentrada em instituições específicas. É nesse ponto que a representação revela seu abismo: não apenas pela possibilidade de um representante agir contra aqueles que o elegeram, mas porque a própria representação estabelece uma distância entre a vontade coletiva e o exercício cotidiano do poder.
As vertentes anarquistas têm insistido, por isso, que a questão não se resolve simplesmente elegendo representantes mais honestos, mais próximos ou mais comprometidos. A história oferece inúmeros exemplos de pessoas que chegaram às instituições políticas movidas por convicções sinceras e, ao longo do tempo, foram condicionadas pelas estruturas, hierarquias, interesses e mecanismos de funcionamento dessas próprias instituições. Isso não significa que todo representante esteja necessariamente condenado à corrupção pessoal, mas que a instituição pode impor limites e incentivos capazes de transformar a atuação daqueles que nela ingressam. Daí a aposta anarquista não estar na representação aperfeiçoada, mas na autogestão direta: recuperar coletivamente a capacidade de decidir sobre os assuntos que dizem respeito à própria vida, reduzindo ao máximo a necessidade de intermediários permanentes. Nessa perspectiva, o voto nulo pode ser compreendido não simplesmente como uma rejeição a candidatos ruins, mas como uma recusa consciente à delegação da própria capacidade política. Ele não constitui, por si só, a autogestão, mas pode expressar a negativa de entregar a outros uma voz que deveria permanecer vinculada àqueles que vivem diretamente as consequências das decisões. Trata-se do gesto de quem prefere preservar a própria voz, ainda que limitada e imperfeita, a transformá-la em mandato permanente para que outros falem em seu nome.
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