Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Basta olhar em volta para constatar que algo não fecha na conta. Há mais de trinta anos o Brasil vive sob um regime eleitoral regular, com alternância de partidos no poder, com debates televisivos, com pesquisas de opinião e com toda a parafernália que acompanha o que se costuma chamar de democracia. Se o voto fosse realmente capaz de transformar estruturas, se a alternância partidária fosse sinônimo de mudança, deveríamos ver, ao longo dessas décadas, alguma alteração de fundo na distribuição de riqueza, na violência policial, no acesso à terra, na precarização do trabalho ou na devastação ambiental. Mas o que se observa é exatamente o contrário: os mesmos problemas persistem, os mesmos setores se beneficiam e as mesmas comunidades continuam na base da pilha, independentemente de quem ocupa o cargo de presidente, governador ou vereador.

A promessa vendida a cada ciclo é a de que, desta vez, será diferente. O candidato da vez surge como uma novidade, como uma ruptura, como a esperança de que algo finalmente vai mudar. E as pessoas, cansadas de sofrer, acreditam. Não por ingenuidade, mas porque a necessidade de acreditar é tão grande que qualquer fresta de possibilidade se transforma em porta. O problema é que a porta, quando aberta, dá sempre para o mesmo cômodo. Os governos passam, os partidos se alternam, os discursos mudam de tom, mas a estrutura de fundo permanece intocada. Os bancos continuam ditando as regras econômicas, os latifúndios não são desfeitos, a polícia continua matando os mesmos corpos, as favelas continuam sem saneamento básico e o salário mínimo continua sendo uma piada de mau gosto para quem precisa sobreviver com ele. A mudança de gestor não altera a lógica da gestão.

Isso acontece porque o Estado não é um recipiente vazio que se enche de acordo com a vontade de quem o ocupa. É uma máquina com interesses próprios, conectada por mil fios aos setores econômicos dominantes. Quem chega ao poder, por mais sincero que seja, precisa negociar com esses setores para governar. Precisa manter a confiança do mercado financeiro, precisa agradar ao agronegócio, precisa garantir que as grandes empresas não saiam do país, precisa manter a ordem que permite a acumulação de capital. E tudo isso é feito em nome da estabilidade, em nome do crescimento, em nome de um futuro que nunca chega para quem está embaixo. O governante não é um herói que falhou em cumprir suas promessas. É um administrador que cumpriu exatamente a função para a qual a máquina o chamou: manter tudo funcionando como está.

As vertentes anarquistas têm apontado isso há gerações: a alternância partidária é o truque de mágica que faz a população acreditar que existe opção quando, na verdade, o que existe é uma rotação de gestores dentro de uma mesma estrutura de poder. O voto nulo, nesse contexto, deixa de ser um gesto de desistência para se tornar um ato de lucidez. É o reconhecimento de que a mudança real não cabe dentro de uma cédula, de que a esperança não pode ser depositada em quem chega ao cargo já comprometido com os interesses de quem o financia. Não é garantia de revolução, mas é a recusa a participar da farsa de que basta trocar de peça para que a máquina funcione de outro jeito. A máquina funciona exatamente como foi projetada. E quem quer outro mundo precisa começar a construí-lo fora dela.

O mito da mudança pelo voto
Tags: