Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

A questão da habitação é, antes de tudo, uma questão de poder. Quem pode permanecer na cidade? Quem consegue morar perto do trabalho, da escola, do hospital, do transporte e da cultura? Quem é empurrado para longe quando uma região se valoriza? E, sobretudo, quem decide para quem a cidade deve servir?

Para o anarquismo, essas perguntas não podem ser separadas da propriedade, da exploração e da forma como a economia organiza a vida. Moradia não deveria ser uma mercadoria condicionada à capacidade de pagamento. É uma necessidade humana. No entanto, nas grandes cidades brasileiras, milhões de pessoas vivem sob uma lógica em que o direito de permanecer no território depende cada vez mais da renda disponível para pagar aluguel, financiamento e serviços.

O processo se torna particularmente visível nas regiões centrais. Projetos chamados de revitalização, requalificação ou recuperação urbana frequentemente vêm acompanhados da valorização imobiliária e da transformação do perfil social de determinados territórios. Recuperar prédios históricos, ampliar equipamentos culturais e melhorar espaços públicos não é, por si só, um problema. A questão começa quando essas transformações são realizadas sem garantir que quem já vive e trabalha no local possa continuar vivendo e trabalhando ali.

É nesse ponto que a cidade revela suas prioridades.

Quando o aluguel sobe, cortiços são removidos, o comércio popular é restringido, trabalhadores informais são expulsos das ruas e a população em situação de rua passa a ser tratada principalmente como problema de segurança pública, a chamada revitalização assume outro significado. O território se valoriza, mas seus moradores não.

A contradição é brutal: o mesmo trabalhador que construiu, reformou e mantém a cidade frequentemente se torna indesejável quando pretende habitá-la.

Esse processo é conhecido como gentrificação. Um território recebe investimentos, os imóveis se valorizam, novos negócios se instalam e o custo de permanecer aumenta. Pouco a pouco, quem possui menor renda é empurrado para regiões cada vez mais distantes. Troca-se a proximidade por horas de deslocamento. Troca-se tempo de vida por transporte. A cidade se divide entre quem pode comprar localização e quem precisa vender parte da própria existência apenas para atravessá-la todos os dias.

Para uma perspectiva anarquista, o problema não se limita à má administração urbana ou à ausência de políticas públicas suficientes. A questão alcança a própria lógica que permite manter imóveis vazios enquanto existem pessoas sem moradia; terrenos abandonados enquanto famílias vivem em condições precárias; edifícios transformados exclusivamente em ativos financeiros enquanto milhares procuram um lugar onde dormir.

É essa contradição que coloca a propriedade em questão.

Se um edifício permanece abandonado durante anos enquanto pessoas vivem nas ruas ou em moradias precárias, por que o direito de conservar uma propriedade sem função social deve valer mais do que a necessidade concreta de quem precisa de abrigo?

Daí nasce a ocupação.

Ocupar um imóvel abandonado e transformá-lo em moradia, centro comunitário, espaço cultural ou ponto de organização popular significa questionar uma ordem que protege juridicamente a propriedade vazia, mas criminaliza quem não possui teto. Experiências de ocupação urbana demonstram que edifícios abandonados podem se transformar em comunidades vivas, organizadas e capazes de criar redes de solidariedade onde antes existia apenas abandono e especulação.

Mas, para uma perspectiva libertária, ocupar não pode significar simplesmente trocar um proprietário por outro.

O objetivo é construir autonomia.

Uma comunidade precisa ser capaz de decidir coletivamente sobre o espaço que ocupa, dividir responsabilidades, organizar o cuidado, enfrentar problemas e construir mecanismos que impeçam o surgimento de novas hierarquias. Não basta retirar o proprietário privado se, dentro do espaço ocupado, outras pessoas passam a concentrar permanentemente o poder de decidir.

A ocupação, quando vinculada à autogestão, deixa de ser apenas uma resposta à falta de moradia. Torna-se também uma experiência prática de outra forma de organização social.

A questão habitacional não será resolvida apenas construindo mais unidades para alimentar o mercado imobiliário, nem empurrando continuamente a população pobre para regiões cada vez mais distantes. É preciso perguntar por que uma sociedade capaz de construir milhares de edifícios permite que tantos permaneçam vazios enquanto tantas pessoas não têm onde morar.

A cidade deveria servir a quem nela vive, trabalha e constrói sua existência, e não apenas a quem consegue transformar cada metro quadrado em fonte de renda.

Diante da especulação imobiliária, da expulsão territorial e da transformação da moradia em mercadoria, a resposta libertária não pode ser apenas indignação. Precisa ser organização.

Organizar para resistir. Organizar para construir solidariedade. Organizar para defender quem é expulso. Organizar para ocupar espaços abandonados e transformá-los em lugares de vida coletiva. Organizar para que as decisões sobre a cidade deixem de ser monopólio de governos, incorporadoras e proprietários.

Não queremos apenas sobreviver nas margens da cidade planejada por outros.

Queremos construir uma cidade em que ninguém seja tratado como margem humana.

Se existe espaço vazio e existe gente sem moradia, há algo profundamente errado na ordem que chamamos de normal.

Se existe cidade para o capital, mas não existe cidade para quem trabalha, constrói e sustenta essa cidade todos os dias, então não basta pedir lugar.

É preciso disputar a cidade.

Ocupar. Resistir. Organizar. Construir.

Algumas palavras sobre habitação e anarquismo
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