
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
O Brasil nasceu marcado pela exploração, pela concentração da propriedade e pela violência exercida contra aqueles submetidos à conquista, à escravidão e à expropriação. A invasão portuguesa destruiu comunidades indígenas, tomou territórios e impôs uma ordem social baseada na força. Depois, a escravidão de milhões de africanos e seus descendentes consolidou uma estrutura em que uma minoria acumulava terra, riqueza e poder enquanto uma maioria era obrigada a produzir sob coerção. A abolição formal, em 1888, não eliminou essas estruturas. A desigualdade apenas mudou de forma e continuou atravessando a sociedade brasileira.
Somos herdeiros dessa história. De um lado, concentram-se propriedade, capital e poder político; de outro, milhões dependem da venda da própria força de trabalho para sobreviver, enquanto outros permanecem desempregados, subempregados ou submetidos à informalidade. A riqueza é produzida coletivamente, mas seu resultado segue distribuído de forma profundamente desigual. Moradia, alimentação, educação, saúde e segurança material — o que deveria ser condição elementar de existência digna — segue submetido à capacidade individual de pagar.
O Estado não corrige essa estrutura. Para a perspectiva anarquista que orienta esta campanha, ele é uma das instituições que organizam e preservam as relações de poder existentes. Suas leis, sua burocracia, sua polícia, seus tribunais e seus mecanismos de representação estabelecem os limites dentro dos quais a sociedade pode participar das decisões sobre a própria vida. A população é chamada a escolher periodicamente quem ocupará cargos, mas raramente é chamada a decidir diretamente sobre a estrutura econômica e social que determina sua existência.
É nesse ponto que aparece a função das eleições.
A cada ciclo eleitoral, apresenta-se à população a escolha entre candidaturas já organizadas por partido, aliança, grupo econômico e estrutura profissional de campanha. Trocam-se nome, slogan e promessa. Mudam os discursos. Algumas políticas se alteram, algumas conquistas se obtêm. Mas a estrutura fundamental permanece: uma minoria recebe mandato para decidir em nome de milhões.
Para o anarquismo, o problema não está em encontrar político mais honesto, mais competente ou mais comprometido. Está na própria delegação permanente da capacidade de decidir. Quem recebe mandato passa a ocupar posição diferente de quem o concedeu: precisa negociar com partido, grupo econômico, instituição, aliança parlamentar, interesse organizado. A cada eleição promete-se que desta vez será diferente. Depois de eleito, o representante passa a atuar dentro das mesmas estruturas que existiam antes dele.
Trocar pessoa sem transformar relação de poder significa, na maioria das vezes, trocar administrador sem alterar o sistema administrado.
É contra essa lógica que propomos o voto nulo como posição política de recusa — não como ilusão de que, sozinho, vá derrubar uma eleição ou produzir transformação automática. Não produz. Voto nulo não cancela juridicamente eleição por atingir determinado número. Seu sentido, aqui, é outro: recusar escolher entre alternativas que não representam o projeto de emancipação que defendemos. Essa recusa já tem tradição no país: no primeiro turno de 2018, quase 9% dos votos válidos foram nulos ou em branco — quase 13 milhões de pessoas dizendo, pela urna, que nenhuma opção as representava.
Mas é preciso ir além da urna.
Votar nulo e voltar para casa esperando que algo aconteça seria só transformar recusa em passividade. Voto nulo só ganha sentido político quando vem acompanhado de organização, educação, solidariedade e ação direta. A urna registra uma negativa; só a organização coletiva transforma essa negativa em força social.
Nossa classe não é homogênea. Há trabalhador urbano e rural, gente desempregada, precarizada, informal, estudante, aposentado, e tantos outros grupos submetidos de formas diferentes à exploração econômica e à opressão social. Há diferença de origem, gênero, raça, cultura, profissão, experiência. Essas diferenças não precisam nos separar. Precisamos achar o que nos une sem apagar o que nos diferencia.
A riqueza produzida pelo trabalho coletivo não deveria ser propriedade de uma minoria. Conhecimento não deveria ser privilégio. Moradia não deveria ser mercadoria. Saúde não deveria depender de renda. A capacidade de decidir sobre a própria existência não deveria ser delegada de forma permanente a representante profissional.
Nossa tarefa não termina no voto nulo. Ela começa onde termina a lógica eleitoral.
Precisamos nos educar para entender as estruturas que nos oprimem. Precisamos nos organizar para enfrentá-las. Precisamos construir rede de apoio mútuo capaz de responder às necessidades concretas da comunidade. Precisamos fortalecer sindicato combativo, coletivo de trabalhadores, organização de moradia, associação comunitária, cooperativa autogestionária, grupo de estudo, rede de solidariedade — toda forma de organização que amplie a autonomia coletiva.
Não precisamos esperar eleição para começar.
Uma hora por dia dedicada à causa pode parecer pouco. Uma leitura, uma conversa, um texto, uma reunião, uma contribuição, uma atividade comunitária, um contato novo, uma ação de solidariedade, uma discussão sobre organização — podem parecer acontecimento isolado e pequeno. Não são. Cada iniciativa é tijolo na construção de uma força coletiva capaz de substituir dependência por autonomia.
Não podemos passar um dia sequer sem fazer algo para construir aquilo em que acreditamos.
A propaganda do sistema ensina a esperar. Esperar a próxima eleição. Esperar o candidato certo. Esperar a próxima reforma. Esperar que alguém, em algum lugar, resolva o que nos afeta todo dia.
Nós recusamos essa espera.
Emancipação não vem de governante. Não é entregue por partido. Não nasce de promessa eleitoral. Ela se constrói pelas próprias pessoas que vivem a consequência da exploração e da opressão.
Nossa campanha, portanto, não é simplesmente campanha contra o voto. É campanha pela organização para além do voto.
Voto nulo é recusa. Ação direta é prática. Organização é caminho. Autogestão é objetivo.
Não queremos só escolher melhor quem manda.
Queremos construir uma sociedade em que ninguém precise mandar em ninguém.
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Saúde e anarquia!
