Por Akracia – Fenikso Nigra

Toda revolução que derruba um poder corre o risco de reproduzir aquilo que acabou de combater. Mudam os uniformes, mudam os discursos, mudam os nomes dos governantes, mas a autoridade pode permanecer intacta. O palácio desaparece; surge o comitê. O czar é derrubado; aparece o funcionário que decide em seu nome. A bandeira muda, mas a relação entre quem manda e quem obedece continua.

Foi diante desse problema que, na Ucrânia revolucionária de 1918, anarquistas vindos de diferentes regiões começaram a reconstruir suas organizações. A repressão bolchevique empurrava militantes de Petrogrado e Moscou para o sul, onde encontraram grupos anarquistas que haviam sobrevivido às prisões e ao exílio. Em Carcóvia, esse encontro produziu uma nova tentativa de reunir os grupos dispersos e transformá-los em uma força revolucionária capaz de atuar de maneira coordenada sem abandonar sua autonomia. Nascia a Nabat, a “Confederação das Organizações Anarquistas”, que estabeleceria núcleos em importantes cidades ucranianas antes de ser esmagada pela repressão bolchevique.

A ideia central era simples, mas explosiva: organização não precisava significar centralização.

Volin, uma das principais referências teóricas da Confederação, defendia aquilo que chamou de “anarquismo único”: uma organização capaz de reunir anarco-comunistas, anarcossindicalistas e anarquistas individualistas sem transformar suas diferenças em motivo para uma nova hierarquia. A unidade deveria existir, mas não à custa da autonomia. A organização deveria ampliar a capacidade coletiva de ação, não criar uma nova autoridade encarregada de falar em nome de todas as pessoas.

Esse problema continua absolutamente atual.

Ainda hoje existe quem imagine que uma transformação social precisa primeiro conquistar o Estado, centralizar decisões e somente depois distribuir liberdade. O argumento muda de forma conforme a época: primeiro é necessário tomar o poder; depois reorganizar a sociedade; depois eliminar as classes; por fim, extinguir o próprio Estado. O problema é que esse “depois” pode nunca chegar.

A experiência histórica mostrou o perigo. O Nabat recusava a ideia bolchevique da “ditadura do proletariado” e rejeitava a existência de uma etapa transitória que justificasse a manutenção de estruturas autoritárias até a chegada de uma sociedade sem Estado. Para seus integrantes, a revolução não deveria ser uma escada pela qual um partido subiria ao poder para, algum dia, decidir se estava pronto para descer. A sociedade futura precisava começar a ser construída dentro da própria revolução.

Por isso, a perspectiva defendida pelo Nabat apontava para uma federação livre de comunas urbanas e rurais. A proposta não consistia simplesmente em substituir proprietários privados por administradores estatais, mas em transformar a própria maneira pela qual produção, território e decisões coletivas seriam organizados. A autonomia das comunidades deveria coexistir com formas de coordenação entre elas, sem que a coordenação se convertesse em um novo centro permanente de autoridade.

Essa questão permanece atual porque o autoritarismo não desaparece quando muda de ideologia.

Uma organização pode falar em nome dos trabalhadores e ainda assim tratar trabalhadores como massa obediente. Pode defender igualdade e construir uma burocracia com privilégios. Pode combater uma ditadura e criar outra. Pode proclamar que representa o povo enquanto concentra justamente nas próprias mãos a capacidade de decidir o que o povo deve fazer.

É por isso que a experiência da Nabat também revela uma contradição importante: a unidade revolucionária é necessária, mas unidade não pode significar uniformidade.

A própria Confederação encontrou dificuldades para reunir as diferentes tendências anarquistas. Parte dos anarcossindicalistas recusou sua proposta de unificação por temer que os anarco-comunistas se tornassem dominantes. O problema que pretendiam resolver — como organizar diferentes correntes sem criar uma nova autoridade — também apareceu dentro da própria organização.

Isso torna sua experiência ainda mais interessante. Não existe fórmula mágica capaz de impedir que relações de poder reapareçam. É preciso construir mecanismos permanentes para identificá-las, limitar sua concentração e preservar a autonomia de quem participa da organização.

O Nabat também viveu a contradição mais brutal de uma revolução: como enfrentar uma força militar autoritária sem reproduzir sua estrutura?

Durante a guerra civil, seus integrantes consideravam os Exércitos Brancos uma ameaça imediata e, ao mesmo tempo, criticavam o Exército Vermelho por sua estrutura militar hierárquica e centralizada. O Nabat depositava suas esperanças em forças insurgentes organizadas diretamente entre a população revolucionária, fora da estrutura oficial do Exército Vermelho. Seus integrantes viam nas forças de Nestor Makhno uma das principais expressões dessa possibilidade.

É importante, porém, não confundir as duas experiências. O movimento makhnovista não era simplesmente o braço militar da Nabat. Tratava-se de uma experiência própria, embora houvesse convergências políticas, contatos e momentos de coordenação entre os anarquistas da Confederação e as forças insurgentes ucranianas. A relação entre organização política, movimento popular e força militar permaneceu, portanto, uma questão aberta e profundamente contraditória.

O dilema continua reconhecível: como defender uma transformação social sem entregar sua defesa a uma instituição que, depois, pode transformar-se em autoridade sobre a própria revolução?

Talvez essa seja uma das maiores lições do Nabat para o presente. Mais do que perguntar quem controla o poder, é preciso perguntar como o poder está organizado e quem pode controlá-lo, contestá-lo e revogá-lo. O problema não é simplesmente trocar os ocupantes do comando. É impedir que o comando se transforme novamente em domínio.

Uma revolução libertária não pode depender de uma minoria iluminada que sabe antecipadamente o caminho que todas as outras pessoas deverão seguir. Não pode depender de um partido que reivindique representar a totalidade da classe trabalhadora. Não pode trocar o patrão pelo burocrata, o general pelo comissário ou o governante eleito pelo dirigente revolucionário e chamar essa substituição de emancipação.

A liberdade precisa estar presente no método, na organização e nas relações construídas durante a luta.

Isso não significa ausência de coordenação, responsabilidade ou organização. Significa que coordenação não deve produzir submissão, que representação não deve transformar-se em poder permanente e que especialização não deve converter-se em privilégio político. Uma organização libertária precisa ser suficientemente forte para agir coletivamente e suficientemente descentralizada para impedir que essa força se transforme em instrumento de dominação.

Foi essa tensão que atravessou a experiência da Nabat: organizar sem dominar, coordenar sem centralizar, unir sem uniformizar e defender a revolução sem transformar sua defesa em uma nova estrutura de poder.

Mais de um século depois, a pergunta permanece.

Se a revolução pretende acabar com quem manda sobre nós, por que começar entregando a alguém o direito de mandar em nosso nome?

Nabat: quando a revolução não aceita novos donos