
A cada eleição, um mesmo argumento reaparece com a insistência de um refrão gasto: é preciso votar no mal menor. A frase parece sensata à primeira vista, afinal de contas, ninguém quer que o pior candidato vença. Mas quando se desmonta essa lógica com calma, percebe-se que ela funciona menos como estratégia de sobrevivência e mais como uma prisão para a imaginação política. O discurso do voto útil não é apenas um cálculo eleitoral; é um mecanismo poderoso de neutralização da crítica radical, que transforma a recusa em culpa e a esperança de transformação em resignação.
Primeiro, convém entender como essa armadilha se monta. O cenário é sempre o mesmo: dois ou três candidatos aparecem como viáveis, e o restante é descartado como perda de tempo. Aqueles que não se encaixam nesse grupo seleto são tratados como ilusões, fantasias ou, pior, como culpados pelo eventual resultado desfavorável. A lógica é simples e brutal: se você não vota no menos pior dos grandes, você é responsável pela vitória do pior. Nesse jogo, a culpa é transferida para quem recusa participar da farsa, e não para quem a montou. Quem propõe algo diferente, quem aposta em propostas que fogem do eixo dominante, é transformado em bode expiatório. Assim, o campo político se estreita a cada ciclo, e o que sobra é uma escolha entre variações do mesmo projeto de poder.
Depois, é preciso notar o que esse discurso faz com a capacidade de pensar alternativas. Quando se aceita que a única saída é escolher entre males, já se admitiu de antemão que nada de fundamental pode mudar. A política deixa de ser um espaço de construção coletiva do futuro e vira uma operação de controle de danos. As pessoas são convencidas de que sonhar com outra organização social é luxo de ingênuos, e que a maturidade política se resume a aceitar o que existe com o mínimo de prejuízo possível. Mas essa suposta maturidade esconde uma derrota silenciosa: a derrota da capacidade de imaginar que outro mundo é possível. O mal menor não é uma escolha estratégica; é uma rendição disfarçada de pragmatismo.
Por fim, vale questionar quem de fato se beneficia dessa lógica. Os grandes partidos, as elites econômicas e os aparatos de mídia têm interesse direto em manter a população presa nesse círculo vicioso. Se todo mundo vota no mal menor, ninguém vota na transformação. As promessas de campanha podem variar no tom, mas a estrutura de fundo permanece intocada: a concentração de riqueza, a violência policial, a precarização do trabalho, a devastação ambiental. Tudo isso continua lá, independentemente de quem ocupa o cargo, porque quem vence já sabe que não precisa responder a quem o elegeu. Bastou ser um pouco menos pior que o outro. As vertentes anarquistas têm apontado há muito tempo que essa dinâmica não é acidental. Ela é o funcionamento normal de um sistema que precisa da aparência de escolha para se manter vivo. Recusar o mal menor não é ingenuidade; é o reconhecimento de que a mudança real não cabe dentro de uma urna.
O voto nulo, nesse contexto, deixa de ser um gesto vazio para se tornar uma recusa explícita a essa armadilha. Anular o voto é dizer que não se aceita o cardápio imposto, que não se compactua com a lógica do menos pior, que se recusa a legitimar um jogo onde as regras são feitas para perpetuar a mesma ordem. Não é garantia de revolução, mas é um ato de lucidez em meio ao nevoeiro eleitoral. E é a partir dessa lucidez que se pode começar a construir outras formas de luta, outras formas de organização, outras formas de sonhar com um futuro que não seja apenas uma versão amenizada do presente deplorável.
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