Costuma-se falar do Estado como se fosse uma espécie de árbitro imparcial, uma entidade que ficaria acima das disputas sociais, zelando pelo bem comum e distribuindo oportunidades com equilíbrio. Essa ideia é repetida tanto nas escolas quanto nos discursos de campanha, e acaba sendo absorvida como verdade evidente por grande parte da população. Mas quem observa a realidade com atenção percebe que a história não confirma essa versão. O Estado, longe de ser neutro, nasceu como instrumento de dominação e continua funcionando, essencialmente, para preservar uma ordem onde poucos detêm muito e muitos sobrevivem com pouco.

Primeiro, convém lembrar como essa estrutura se formou. Não houve um momento em que a humanidade se reuniu pacificamente e decidiu criar um governo para organizar a convivência de forma justa. O Estado surgiu da conquista, da centralização da força e da necessidade de quem detinha riquezas de proteger o que possuía contra quem não possuía nada. Ao longo dos séculos, as formas mudaram: monarquias deram lugar a repúblicas, ditaduras se transformaram em democracias representativas, mas a função permaneceu a mesma. A máquina estatal segue sendo o mecanismo através do qual se administram prisões, se cobram impostos, se regulam leis trabalhistas que na prática favorecem quem explora, e se garante que a propriedade privada dos mais poderosos permaneça intocada. Polícias, exércitos, tribunais e burocracias inteiras existem para manter esse funcionamento, e nenhum deles opera de forma autônoma ou desinteressada.

Depois, é preciso entender onde as eleições se encaixam nesse quadro. Se o Estado fosse realmente uma instância aberta à transformação, bastaria votar direito para que a vida coletiva mudasse de verdade. Mas a experiência mostra que, independentemente de quem vença as urnas, as estruturas de fundo permanecem intactas. Os bancos continuam ditando regras, os latifúndios não são desfeitos, a polícia continua reprimindo os mesmos corpos, e a fome persiste nas mesmas comunidades. Isso acontece porque o Estado não é um recipiente vazio que se enche de acordo com a vontade de quem o ocupa. É uma máquina com interesses próprios, conectada por mil fios aos setores econômicos dominantes. Quando alguém é eleito, não assume o poder para mudar o jogo. Assume o poder para administrar o jogo existente, e quem define as regras desse jogo não está nas urnas.

Nesse sentido, as eleições funcionam como uma válvula de escape muito eficiente. A insatisfação social, gerada pela própria desigualdade que o Estado protege, é canalizada para dentro de um processo onde a única saída permitida é escolher entre gestores pré-aprovados. A raiva contra a violência policial, contra os despejos, contra o desemprego e contra a miséria é convertida em energia eleitoral, em debates de televisão, em campanhas nas redes sociais. As pessoas são convencidas de que a mudança passa necessariamente por ali, e enquanto isso as ruas esvaziam, as greves diminuem e a organização autônoma perde fôlego. O sistema não precisa impedir a insatisfação. Precisa apenas garantir que ela se expresse de formas que não ameacem a estrutura.

Por fim, vale ressaltar que reconhecer o caráter não neutro do Estado não é uma constatação teórica sem consequências. É um convite a olhar para outro lugar. Se a transformação real não passa pelo voto, então é preciso construir outras formas de pressão e de organização. As vertentes anarquistas têm insistido nisso há gerações: a mudança não vem de quem ocupa o palácio, mas de quem ocupa as ruas, as fábricas, os terrenos e os espaços de vida cotidiana. O Estado não é neutro, mas tampouco é invencível. Sua força reside na aceitação passiva de que não há alternativa. Desnaturalizar essa ideia é já um passo importante para começar a imaginar outro caminho.

A máquina não é neutra
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