
Em uma tarde qualquer do ano de 1872, em um salão empoeirado de Haia, um grupo de trabalhadores e pensadores discutia o futuro do movimento operário internacional. De um lado, defendia-se que a conquista do poder estatal, através das urnas e dos parlamentos, era o caminho inevitável para a transformação social. Do outro, uma voz russa, impaciente e grave, argumentava que ocupar os cargos do governo seria como tentar abolir a opressão usando suas próprias ferramentas. Mikhail Bakunin, junto com seus companheiros, perdia aquela votação específica, mas levava consigo algo mais valioso: a semente de uma desconfiança que atravessaria séculos e chegaria até as fábricas, oficinas e sindicatos de todo o mundo. A desconfiança de que a emancipação dos trabalhadores e das trabalhadoras não passaria pela buzina de um microfone parlamentar, mas pela organização direta nos locais onde a exploração acontecia de fato.
Essa posição não era apenas uma divergência teórica entre intelectuais. Tomava corpo cada vez que um sindicato recusava indicar candidatos, cada vez que uma assembleia de bairro decidia agir sem esperar por uma lei, cada vez que um grupo de operários parava as máquinas sem consultar a permissão de um deputado. Na Espanha, por exemplo, a Confederação Nacional do Trabalho, a CNT, construiu décadas de luta operária sem nunca se submeter à lógica partidária eleitoral. Seus militantes organizavam greves, ocupavam terras, montavam cooperativas e enfrentavam a repressão do Estado sem a ilusão de que uma mudança de governo resolveria seus problemas. O poder, na visão que orientava essas práticas, não estava no parlamento. Estava nas mãos de quem produzia, transportava e mantinha a cidade funcionando. E era nesse poder concreto, material, que se apostava.
No Brasil, no início do século passado, a mesma chama encontrou terreno fértil. Sindicatos operários, muitos deles orientados por militantes anarquistas, recusavam sistematicamente a participação eleitoral. Não por desinteresse pela política, mas por um entendimento claro de que a política dos partidos era a política dos patrões disfarçada de voz popular. Panfletos distribuídos em portas de fábricas alertavam que o voto era um anestésico, algo que adormecia a consciência de classe enquanto a exploração continuava inalterada. As greves de 1917 em São Paulo, as mobilizações pelo fim da jornada excessiva de trabalho, as lutas contra a carestia, tudo isso ocorria fora do circuito eleitoral. A ação direta, a greve, o boicote, a propaganda entre os próprios trabalhadores: esses eram os instrumentos considerados legítimos, porque colocavam o protagonismo nas mãos de quem sentia na pele os efeitos da opressão.
É claro que essa história não é linear nem isenta de contradições. Houve momentos em que setores do movimento operário, inclusive influenciados por vertentes anarquistas, debateram se não valeria a pena apoiar candidaturas específicas em determinadas circunstâncias. Houve divisões, hesitações, derrotas. Mas o fio condutor permaneceu: a convicção de que a liberdade não se delega, a certeza de que quem ocupa um cargo de governo, por mais sincero que seja, acaba administrando a mesma máquina que antes oprimia, e a aposta de que a transformação só seria duradoura se viesse de baixo, das bases, da organização autônoma dos explorados.
Relembrar essa trajetória hoje não é um exercício de nostalgia. É uma forma de lembrar que a recusa ao voto não nasceu do desespero ou do cinismo, mas de uma tradição viva de luta. Quando alguém anula o voto em 2026, está ecoando, consciente ou não, a posição daqueles operários que preferiam parar uma fábrica a eleger um representante. Está reconhecendo que a mudança real não cabe numa cédula, mas na capacidade de organização de quem, todos os dias, constrói e reconstrói o mundo com as próprias mãos.
