Por LoBo – Fenikso Nigra

Chegou o segundo turno e, com ele, a velha pressão. Grupos partidários procuraram pessoas anarquistas para negociar o voto, invocando o medo do pior, pedindo adesão mesmo em meio ao nojo, tudo para manter na presidência o grupo que se apresenta como o mais progressista. Antes de ceder ou de recusar, vale perguntar o que está sendo defendido de fato.

Cabe perguntar quando um grupo no poder merece o nome de esquerda. Será esquerda quem, em mais de dezesseis anos de governo, ampliou transferências de renda sem tocar na estrutura de propriedade, na concentração fundiária e no poder econômico que produzem a pobreza? Será esquerda quem assegura os interesses das patronais, dos grandes latifundiários, das mineradoras e da prospecção de petróleo em áreas sensíveis? A resposta depende do que se entende por esquerda. Para parte do campo progressista, governar é ocupar o Estado e negociar com o capital em busca de ganhos graduais, e isso bastaria. Para vertentes anarquistas, não basta: o Estado não é ferramenta neutra que se possa emprestar à libertação, e a negociação permanente com quem explora termina por reproduzir a exploração sob outra roupagem. O polo oposto, nessa leitura, não oferece estrutura diferente. Oferece a mesma, sem o verniz social.

A história ajuda a pensar, e um exemplo recente vale mais do que muitos discursos. Em outubro de 2025, o Ibama concedeu à Petrobras a licença para explorar petróleo na Foz do Amazonas, área de recifes e manguezais de alta biodiversidade, depois de ter negado a mesma licença em 2023. A reversão veio após recurso da empresa e forte apoio político. Não se trata de um detalhe administrativo: trata-se da abertura de uma nova fronteira petrolífera numa região ambientalmente sensível, decidida por um governo que se apresenta como progressista e que, na prática, aprofunda a dependência de atividades extrativas. O pesquisador Eduardo Gudynas deu nome a esse fenômeno: neoextrativismo progressista, a ideia de que governos de esquerda compensam a exploração intensificada de recursos naturais com programas sociais. O prato de comida de quem é pobre passa a depender da mesma lógica que envenena o rio de quem é ribeirinho. Esses são fatos documentados. Lê-los como prova de que o Estado não serve à libertação é uma interpretação anarquista, e como tal deve ser apresentada.

Os números mostram o limite dessa escolha. Em 2024, o IBGE registrou o menor nível de pobreza da série histórica, 23,1%, uma conquista real. Mas, sem os benefícios sociais, ela seria de 28,7%, e a extrema pobreza saltaria de 3,5% para 10%. Em 2021, em plena crise sanitária e econômica, a pobreza chegara a 36,8%. Uma conquista que depende de transferência e de conjuntura, e não de estrutura, é conquista emprestada. É assim que o sistema aposta a vida de quem é vulnerável no resultado da urna: faz o prato de comida depender da eleição, e depois cobra gratidão por não ter tirado o prato.

Aqui o argumento do voto útil pede resposta direta. Ele diz que, justamente por essa dependência, quem é vulnerável tem mais a perder se o outro lado vencer. É a objeção mais forte ao voto nulo, e não a tratamos com desprezo: a vida de quem mais precisa muda, sim, conforme quem governa, e essa é a própria denúncia. Se tanta gente pode ser empurrada de volta à miséria por uma eleição, o problema é um arranjo em que a sobrevivência de milhões se renegocia a cada quatro anos. O voto útil promete proteger quem é vulnerável do pior; o que ele protege, a cada ciclo, é o mecanismo que torna essa proteção sempre provisória. E cada vez que o apoio é arrancado pelo medo, o governo aprende que não precisa mudar nada para merecer o voto de quem deveria cobrá-lo.

Recusar a urna não é indiferença, e convém não confundir as duas coisas. Votar nulo, votar em branco ou deixar de votar são formas de recusar a delegação. Num país de voto obrigatório, a multa é pequena; o gesto, não. O voto nulo, aliás, não anula eleição alguma, e quem promete isso engana. Seu sentido é outro: dizer, diante da urna, que nenhuma das opções recebe procuração para falar em nosso nome. Mas a recusa só ganha corpo quando deixa de ser gesto solitário e vira organização. A ocupação que resiste ao despejo, a cozinha comunitária, o comitê de moradia, o sindicato de base, a rede de apoio mútuo que alimenta, abriga e defende sem esperar resultado de eleição — é isso que protege quem é vulnerável no dia seguinte, seja qual for o resultado. A diferença entre recusa ativa e abstenção passiva está exatamente aí: uma constrói, a outra apenas espera.

Não queremos o menos pior. Queremos que a vida de quem trabalha, de quem está na fila, de quem dorme com medo do despejo, nunca mais dependa do humor das urnas nem da boa vontade de quem ocupa o palácio. Isso não significa ignorar o que está em jogo, nem fingir que todos os governos produzem os mesmos efeitos sobre a vida de quem trabalha. Significa recusar a lógica que converte, a cada eleição, nossa autonomia em moeda de troca. A transformação não virá de quem ocupa o palácio, mas de quem constrói, na base, formas de organização que não dependem de palácio nenhum.

Nenhum voto emprestado. Nenhuma liberdade delegada.

Voto útil, voto nenhum
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