Akracia – Fenikso Nigra

Ouvir alguém se dizer anarco-capitalista provoca, em quem conhece minimamente a tradição libertária, uma reação imediata de estranhamento. Não se trata de uma simples discordância doutrinária, mas de algo mais fundamental: a sensação de estar diante de uma contradição nos próprios termos. Seria como alguém se proclamar abolicionista-escravocrata — expressão que, por si só, revela seu absurdo, pois junta dois conceitos que se excluem mutuamente. O mesmo ocorre com a tentativa de casar anarquismo e capitalismo. Não há síntese possível entre eles; há, isso sim, um equívoco conceitual que precisa ser desfeito.

A confusão nasce, em boa medida, do uso ambíguo que fazemos da palavra “liberal”. No senso comum, “liberal” tornou-se sinônimo de comportamento descompromissado, de libertinagem ou de ausência de freios morais. Mas essa acepção cotidiana pouco tem a ver com o liberalismo como doutrina política e econômica. O liberalismo, em sua formulação clássica, é a defesa intransigente da propriedade privada, do livre mercado e da autonomia individual compreendida como direito de acumular sem entraves. É uma concepção que pode aceitar um Estado mínimo — ou, em suas versões mais radicais, um Estado quase inexistente —, mas nunca prescinde da proteção jurídica à propriedade e aos contratos. É disso que se trata quando alguém invoca o “anarco-capitalismo”: de liberalismo extremado, não de anarquismo.

A história recente oferece exemplos concretos do funcionamento dessa lógica. Durante décadas, o governo dos Estados Unidos orientou sua política econômica por princípios liberais radicais, apostando na autorregulação dos mercados e na desregulamentação como motores do crescimento. Até que, em 2008, o colapso financeiro expôs a fragilidade dessa aposta. Grandes bancos e seguradoras, que haviam sido os maiores defensores da liberdade absoluta do mercado, tiveram de ser resgatados com dinheiro público. O Estado, que supostamente deveria ficar de fora, foi chamado de volta para salvar exatamente aqueles que pregavam sua extinção. Esse episódio revela uma verdade incômoda para os defensores do liberalismo radical: o capitalismo, quando levado às últimas consequências, produz crises que só a intervenção estatal pode conter, ainda que temporariamente.

Para a perspectiva anarquista, essa contradição não é acidental. O capitalismo, em qualquer de suas variantes, assenta-se sobre a exploração do trabalho e a acumulação privada da riqueza produzida coletivamente. Sua dinâmica é competitiva e predatória: quem vence no mercado não o faz por mérito absoluto, mas porque extrai mais-valia de quem trabalha e porque externaliza os custos sociais e ambientais de sua atividade. O lucro, nessa visão, é sempre fruto de uma apropriação indevida — não necessariamente no sentido jurídico, mas no sentido ético e político. A miséria, o desemprego, a degradação ambiental e a precarização da vida não são efeitos colaterais do capitalismo; são sua condição de funcionamento.

Em oposição radical a essa lógica, o anarquismo propõe a abolição da propriedade privada dos meios de produção, o fim das classes sociais e a organização da sociedade por meio de formas diretas e horizontais de autogestão. Não há Estado, não há partidos, não há hierarquia que não possa ser questionada e revista pela assembleia. A cooperativa substitui a empresa; a federação de comunas substitui a nação; a decisão coletiva e revogável substitui a delegação de poder. O anarquismo é, por definição, anticapitalista. Não se trata de uma crítica menor ou de uma tendência secundária — é seu alicerce.

Como seria possível unir esses dois mundos opostos? Quem tenta fazê-lo incorre em um erro de lógica ou em um oportunismo disfarçado. Se alguém propõe uma síntese dialética entre anarquismo e capitalismo, o que obtém não é uma nova teoria, mas uma confusão que serve a interesses muito concretos: os do próprio capital, que busca revestir-se de uma aura libertária para escapar à crítica. Chame-se isso de mistificação, de hipocrisia ou de farsa — o nome importa menos do que a necessidade de denunciar a impostura.

Não se trata de negar que existam pessoas que se identificam com o termo “anarco-capitalista”. Elas existem, e algumas delas são sinceras em sua crença. Mas a sinceridade não transforma um equívoco em verdade. Um erro repetido mil vezes continua sendo um erro. E o erro, aqui, é acreditar que se pode ser contra a autoridade e, ao mesmo tempo, a favor de uma estrutura que reproduz, em escala ampliada, a mais brutal das autoridades: a do capital sobre o trabalho, a do patrão sobre o empregado, a do mercado sobre a vida.

É preciso, portanto, chamar as coisas pelo nome. Anarco-capitalismo é um oxímoro, uma contradição nos termos, uma expressão que diz mais sobre o desejo de limpar a imagem do capitalismo do que sobre qualquer projeto emancipatório genuíno. O anarquismo não é um adjetivo que se coloca diante de qualquer coisa para torná-la aceitável. É uma tradição de luta, uma prática de organização e uma visão de mundo que tem, no combate ao capital, uma de suas razões mais profundas de existir.

Anarco-capitalismo não existe mesmo!
Tags: