Por Akracia – Fenikso Nigra

Por mais de um século, as formas autônomas de organização dos trabalhadores no Brasil enfrentaram perseguições, prisões, deportações, assassinatos e sucessivas tentativas de desarticulação. O sindicalismo revolucionário e o anarquismo tiveram presença decisiva na formação do movimento operário brasileiro, especialmente nas primeiras décadas do século XX, mas foram submetidos a uma repressão contínua que buscava não apenas atingir indivíduos, mas destruir a capacidade coletiva de organização independente. A Confederação Operária Brasileira, fundada em 1906, e as greves gerais de 1917 e 1919, as maiores já registradas no país, são marcos dessa época em que a classe trabalhadora demonstrava que podia falar por si mesma, sem intermediários.

Ainda assim, organizações operárias de inspiração anarquista e sindicalista revolucionária resistiram e mantiveram viva uma concepção fundamental: os trabalhadores não precisavam de salvadores, chefes ou representantes profissionais para conduzir sua luta. A emancipação deveria ser obra dos próprios explorados. Era essa autonomia que tornava tais organizações perigosas para o Estado e para as classes dominantes. Não se tratava apenas de reivindicar melhores condições dentro da ordem existente, mas de construir uma força capaz de questionar a própria estrutura que produzia exploração, desigualdade e concentração de poder.

A partir das décadas seguintes, porém, a organização dos trabalhadores enfrentou novas formas de controle. O Estado passou a ampliar sua presença sobre as relações de trabalho, regulamentando sindicatos e integrando parte significativa da organização sindical a uma estrutura institucional. Durante o período Vargas, consolidou-se um modelo sindical fortemente vinculado ao Estado, marcado pelo controle jurídico e administrativo das organizações dos trabalhadores. A promulgação da CLT em 1943, inspirada no corporativismo de Mussolini, completou o desmonte: exigência de autorização estatal para funcionar, prisão de sindicalistas, fechamento de entidades independentes e criação de sindicatos oficiais vigiados pelo Ministério do Trabalho. A autonomia sindical, já profundamente atingida pela repressão anterior, passou também a enfrentar os limites impostos pela institucionalização.

Ao mesmo tempo, ganhou força outra concepção de organização: a de que a transformação social deveria passar pela construção de partidos, pela conquista de cargos e pela ocupação das instituições do Estado. Para essa vertente do pensamento libertário, esse processo produziu uma mudança profunda no centro da luta. Parte da energia que poderia ser dedicada à organização direta dos trabalhadores passou a ser canalizada para disputas partidárias, campanhas eleitorais, alianças institucionais e carreiras políticas. A consequência não foi o desaparecimento das lutas dos trabalhadores. Greves, mobilizações, sindicatos e movimentos sociais continuaram existindo e produzindo importantes enfrentamentos. O problema, segundo essa leitura, é outro: a organização de classe foi progressivamente fragmentada por disputas partidárias e subordinada, em diferentes momentos, a estratégias definidas fora dos próprios espaços de trabalho e de luta.

Em vez de fortalecer a capacidade coletiva de decidir e agir, muitas organizações passaram a depender de direções permanentes, representantes profissionais e estruturas cuja sobrevivência frequentemente se tornou mais importante do que os objetivos que originalmente justificaram sua existência. Quem é eleito passa a decidir em nome de quem não decide. Quem se torna representante profissional passa a ocupar uma posição diferente de quem representa. E, pouco a pouco, a participação coletiva é substituída pela expectativa de que alguém, em algum gabinete, resolva aquilo que a própria população deixou de organizar diretamente.

A questão não é apenas recuperar a memória de organizações que foram destruídas ou enfraquecidas. É reconstruir a capacidade dos trabalhadores de organizarem a própria luta sem entregar a outros o poder permanente de falar, negociar e decidir em seu nome. É aí que o anarquismo e o sindicalismo revolucionário voltam a apresentar uma questão que continua atual: como organizar sem criar uma nova camada de dirigentes acima de quem luta?

A resposta não está na ausência de organização. Pelo contrário. Está em organizações construídas de baixo para cima, em assembleias, sindicatos independentes, associações de trabalhadores, redes de apoio mútuo e formas de coordenação nas quais as decisões permaneçam sob controle de quem sofre suas consequências. Está na ação direta, não como sinônimo de violência, mas como princípio segundo o qual aqueles que enfrentam um problema participam diretamente de sua solução, sem depender permanentemente de representantes para agir em seu lugar.

Essa perspectiva exige mais do que indignação. Exige construção. Exige recuperar a consciência de que somos explorados não como indivíduos isolados, mas dentro de relações econômicas e sociais que concentram riqueza e poder. Exige compreender que um salário, qualquer que seja seu valor, não elimina por si mesmo a relação entre quem depende da venda da própria força de trabalho e quem controla os meios necessários à produção. Exige perceber que a desigualdade não será superada apenas pela substituição de governos, partidos ou dirigentes, enquanto permanecerem intactas as estruturas que permitem a uns decidir sobre a vida e o trabalho de tantos outros.

Por isso, a luta não pode ser reduzida à espera de uma próxima eleição, de uma nova lei ou de uma nova liderança. A emancipação não pode permanecer como promessa para um futuro administrado por terceiros. Ela precisa começar na forma como nos organizamos agora — na assembleia que decide, no sindicato que não pede autorização, na rede de apoio que não depende de edital, na greve que não espera permissão para começar.

Nenhuma dessas práticas, isoladamente, fará uma revolução. Mas nenhuma revolução libertária será construída sem elas. O que fortalece a dependência é a delegação permanente da capacidade de agir. O que fortalece a autonomia é a ampliação da capacidade coletiva de decidir. A tarefa, portanto, não é esperar que alguém conduza a classe trabalhadora à libertação. É reconstruir sua capacidade de caminhar por conta própria — porque quem entrega a própria luta a intermediários pode acabar assistindo à própria emancipação ser transformada em programa, promessa ou carreira.

A reconstrução da organização dos trabalhadores