Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

Há um equívoco que se repete, ano após ano, feira após feira: a ideia de que basta empilhar livros pretos e vermelhos numa banca, vender camisetas com o “A” circulado, lucrar com adesivos de punho erguido, para que a anarquia esteja ali, presente, materializada. Mas a anarquia não cabe numa prateleira. Ela não tem código de barras.

O capitalismo é voraz. Ele devora tudo o que toca, inclusive — e especialmente — aquilo que nasceu para negá-lo. Transforma revolta em estampa, transforma crítica em item de nicho, transforma ruptura em tendência. E assim, paradoxalmente, aquilo que deveria ser a negação radical da lógica da mercadoria vira mais uma mercadoria entre outras: o “produto revolucionário”, vendido para um público que consome a estética da rebeldia sem tocar na sua substância.

Mas ser refém do capitalismo — viver dentro dele, precisar dele para sobreviver, comprar comida, pagar aluguel, vender a própria força de trabalho — não é o mesmo que aceitar que tudo, inclusive as ideias que combatem esse sistema, deva se submeter à sua lógica. Existir dentro da jaula não obriga ninguém a decorar as grades.

A anarquia, quando genuína, é prática antes de ser produto. É organização horizontal, é apoio mútuo, é recusa da hierarquia, é construção coletiva de outras formas de viver e de decidir. Ela acontece nas assembleias, nas ocupações, nos coletivos que dividem tarefas sem chefe, nas redes de cuidado que não esperam lucro. Ela não precisa de etiqueta de preço para existir — na verdade, a etiqueta de preço é exatamente o que a esvazia.

Vender livros sobre anarquismo não é o problema em si — o conhecimento precisa circular, e quem escreve, traduz, diagrama e imprime também precisa comer. O problema é quando a lógica de mercado se torna o centro, quando o gesto de resistência é substituído pelo gesto de consumo, quando comprar o livro passa a ser confundido com viver a ideia, quando a estética do “revolucionário” vira selo de autenticidade subcultural, disputando espaço e capital simbólico como qualquer outra marca no mercado.

Uma feira de livros pode ser um espaço de encontro, de formação, de organização — ou pode ser só mais uma feira, um shopping alternativo, onde a novidade é a embalagem, não o conteúdo. A diferença não está no fato de haver dinheiro circulando (ele sempre vai circular, enquanto vivermos sob este sistema), mas em para onde esse dinheiro vai, quem decide, o que se constrói com ele, e se o espaço segue outra lógica de relação — sem hierarquia de palco e plateia, sem espetáculo, sem estrelato.

A anarquia não é personagem, não é logotipo, não é hashtag. É prática cotidiana, é risco assumido, é recusa concreta de mandar e de obedecer. Pode ser lida nos livros, mas só se confirma nos gestos. E nenhum gesto de fato é vendido em prateleira ou banca de feira, promovendo alguma pessoa anarcologa de academia qualquer.

Anarquia não se compra
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