Por Akracia – Fenikso Nigra

O Oriente Médio já não caminha para uma escalada: vive uma guerra em curso desde fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos conjuntos contra o Irã, matando o próprio líder supremo do país. Cinco meses depois, o conflito se espalhou para Kuwait, Arábia Saudita, Jordânia e Emirados Árabes Unidos, deixou milhares de mortos segundo diferentes fontes e, só nesta semana, levou o governo americano a ameaçar ampliar ainda mais os ataques caso o Irã continue atacando embarcações no Estreito de Ormuz — corredor por onde passa cerca de um quarto do petróleo comercializado no mundo. Nada disso permanece restrito ao campo de batalha: mercados de energia, cadeias de abastecimento, fluxos migratórios e o custo de vida em dezenas de países sentem o impacto.

Para entender esse conflito, é preciso olhar além dos discursos oficiais. O Irã possui algumas das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo e ocupa posição estratégica junto ao Estreito de Ormuz. Autoridades norte-americanas justificam sanções e ações militares citando o programa nuclear iraniano, o apoio de Teerã a grupos armados na região e a segurança de aliados. Diversos analistas de relações internacionais e correntes críticas argumentam que, além dessas justificativas, também estão em jogo o controle de rotas energéticas e a preservação da posição estratégica dos Estados Unidos na região. Segurança e interesse econômico não são fatores excludentes: costumam se entrelaçar.

Do outro lado, o governo iraniano tampouco representa alternativa emancipadora para os povos da região. A República Islâmica mantém estrutura política marcada pela concentração de poder, pela repressão a dissidentes e por severas restrições às liberdades civis. As mobilizações após a morte de Mahsa Amini, em 2022, tornaram visível a existência de amplos setores da sociedade iraniana que contestam o regime. Ao mesmo tempo, o país sustenta alianças com grupos armados em diferentes conflitos regionais, ampliando sua influência para além das próprias fronteiras.

É a população civil que paga o preço mais alto. Kuwait já sofreu danos numa refinaria de petróleo e numa usina de dessalinização; a Jordânia enfrenta bombardeios frequentes; drones americanos foram interceptados pela Guarda Revolucionária iraniana nos últimos dias, e a navegação no Estreito de Ormuz segue interrompida por diversas companhias marítimas. Sanções econômicas, mesmo quando preveem exceções para medicamentos e alimentos, esbarram na prática em restrições bancárias que dificultam sua aquisição. Famílias perdem renda, serviços públicos são interrompidos, e decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância produzem efeitos concretos na vida de quem nunca foi consultado.

Segundo a perspectiva anarquista, esse cenário revela uma característica do próprio sistema internacional baseado em Estados soberanos: a concentração do monopólio da força e a competição entre governos criam incentivos permanentes para o conflito. A guerra deixa de ser resultado de decisões isoladas de determinados governantes e passa a ser lida como possibilidade recorrente de uma ordem estruturada pela rivalidade entre Estados. Nenhum dos dois lados representa automaticamente os interesses das populações que afirma proteger — decisões relacionadas à segurança, ao comércio e aos recursos naturais frequentemente se sobrepõem às necessidades de quem vive sob bombardeio.

Diante desse quadro, a solidariedade internacionalista defendida por correntes anarquistas não se traduz em apoio a um ou outro governo. Parte da ideia de que pessoas afetadas pela guerra compartilham interesse comum na preservação da vida e das condições materiais de existência, independentemente da nacionalidade. Por isso, essas correntes tendem a apoiar movimentos populares que desafiam estruturas autoritárias e se opõem à escalada militar, seja no Irã, nos Estados Unidos ou em qualquer país arrastado para esse conflito.

Meses depois de iniciada, essa guerra segue expressando as tensões de uma ordem mundial marcada pela competição entre Estados e pela disputa por recursos estratégicos. Enquanto a segurança internacional continuar sendo construída por meio de dissuasão militar, sanções e rivalidade entre governos, populações inteiras continuarão arcando com custos que jamais decidiram assumir. Para essa tradição política, a alternativa não está em escolher um lado da disputa, mas em questionar as estruturas que tornam esses conflitos repetidamente possíveis.

Mais uma guerra pela ganância dos Estados
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