
ICN – Fenikso Nigra
Por conta dos 90 anos da Revolução Espanhola, contribuímos com a tradução do livro Durruti no Labirinto. Solicite seu pdf pelo email: [email protected] .
Segue uma parte do texto:
“Prefácio
A história da nossa guerra civil está repleta de questões cuja resolução objetiva é uma necessidade para aqueles que lutam contra a destruição do conhecimento histórico empreendida pelos detentores do poder, pois a liquidação da memória histórica associada ao proletariado significaria a eliminação de qualquer perspectiva revolucionária. A figura de Durruti, como personificação da revolução proletária anarquista de 1936, trouxe à tona muitas dessas questões, verdadeiras feridas do movimento libertário, que, para seu próprio benefício, devem ser mantidas abertas e aprofundadas. Se doem, é sinal de que suas ideias sobrevivem. Essas ideias não têm preço. Aqueles que tentaram vendê-las venderam apenas a si mesmos.
O anarquismo ou é radical ou não é nada.
Nisso reside a verdadeira ortodoxia. No entanto, na era do espetáculo e da cultura de massa, o passado se torna uma mercadoria moderna, consumível como qualquer outra; um objeto de entretenimento cultural acessível em cadernos colecionáveis, DVDs ou séries de televisão.
A turma de historiadores universitários não tem mais a função de falsificar ou ocultar o passado, como os stalinistas, mas sim de convertê-lo em espetáculo. O primeiro passo nessa preparação para o consumo foi a musealização; o segundo, a banalização.
Para os guardiões do templo, a história é um conto fabuloso, sem contradições, destinado à propaganda; porém, para a turma universitária, seria um enorme panteão de cadáveres que poderiam ser desmembrados e analisados como se faria com as múmias do Egito. A distância que nos separa deles seria tão fabulosa que não haveria nada a temer. Uma perspectiva forense certificaria o momento distante da morte e desdobraria uma gama de hipóteses à escolha. Esse aspecto “plural” é a marca registrada da mercadoria; no espetáculo, a moral pouco importa. O passado se torna um recipiente de dados com o qual construir qualquer enredo.
Podemos então passar da história para o romance policial.
Trabalhamos para esquecer, mas de uma forma diferente: se os historiadores stalinistas usaram o presente para reescrever o passado, os especialistas e escritores seriados de hoje usam o passado para mistificar o presente.
A história espetacular legitima a dominação como se não tivesse nada a ver com a anterior; ao embalsamar cadáveres, o poder busca apresentar-se como herdeiro legal dos vencidos e não como vencedor da véspera. Como um bom usurpador, não quer que ninguém saiba que é um recém-chegado, que seu passado é recente, que praticamente não tem história. Que está ali porque ninguém ousa jogá-lo fora.
Um bom exemplo é o “socialismo libertário” que o atual presidente tirou da cartola há alguns anos. A comercialização espetacular da Guerra Civil corresponderia a uma perda total de significado histórico entre as massas, que estão vazias, brutalizadas e amedrontadas. No entanto, essa perda não é completa e, portanto, não pode ser remediada.
A história ainda não pertence àqueles que a manipulam. Durruti só morrerá se sua mitificação triunfar, de modo que seu verdadeiro lugar permaneça vago. O verdadeiro significado de sua vida e morte foi perfeitamente capturado nas linhas a ele dedicadas pelo escritor e anarquista Rodolfo González Pacheco, que o conheceu na Argentina e permaneceu na Espanha durante a Guerra Civil Revolucionária:
“O anarquismo é, antes de tudo, uma posição: o homem livre. Querer sê-lo é sua luta com o ambiente, o mundo ou o outro mundo, a metafísica ou o preconceito que o nega ou oprime. Sua doutrina, o comunismo anarquista, é um significado, não um clichê: um brilho de seu sangue e não uma ficção sociológica. Ele está nele, luta por ele e o vive, e esse é o seu drama: que o impulso de sua vida, poderoso ou delicado, quando expresso em suas ações, pode revelar, para alguns, a imagem fugidia de um santo e, para outros, a imagem emaranhada de um bandido. Este é o homem que ainda não compreendeu a história, nem intuiu a arte, e em cujo rastro os simplórios (os jornalistas) cospem ou se benzem. Dele, de seu caminho obscuro que, de tempos em tempos, ilumina seu ódio ao tirano ou seu amor ao povo, ninguém sabe ou sente, exceto outro libertário. Como Reclus, o terno, ele conhecia Ravachol, o homem-dinamite.
E que o ignorem também não importa. E menos do que nunca agora, quando ideias, sentimentos e adjetivos se voltaram para os instintos. Bons ou maus, vis ou nobres, eles nada expressam. O burguês, com seu cinismo, envergonhava a honra e a desonra.
As palavras permanecem; as cascas de uma polpa que se voltou para dentro, para a raiz da espécie. Tanto melhor! De lá retornarão amanhã, mais saborosas e perfumadas. Mais essenciais.
É também para isso que serve a guerra, com os dentes cerrados e a esperança de triunfo até mesmo nos vermes dos nossos mortos.
Durruti, santo ou bandido, não é, nunca foi, o verdadeiro Durruti, o nosso Durruti. Isso é uma caricatura ou uma lenda: as duas imagens barrocas por trás das quais sempre esteve, imponente em sua tragédia ou em seu poema, a imagem militante do anarquista. E isso não é visto nem compreendido por ninguém além de nós.
O homem morreu. Diante de sua nobre jornada, que não teve outra recompensa além de seu ódio ao tirano e seu amor pelo povo, meditemos por um momento: O que foi Durruti?… Um camarada, cujo vazio deve ser preenchido como, em seu tempo, preencheu o de outro. Lamentá-lo seria lamentar a nós mesmos. E agora é a hora de nos tornarmos incandescentes; para que nosso sangue e lágrimas fluam para dentro, para a raiz da coragem. Vamos marchar! Vá em frente!”(1)
Barcelona, outubro de 2006.”
Na luta somos pessoas dignas e livres!
