
Por Akracia – Fenikso Nigra
Disseram-me que é assim que a vida funciona. Que é preciso trabalhar para sobreviver, obedecer para ter segurança, competir para prosperar e consumir para ser alguém. Disseram-me que algumas pessoas nasceram para mandar e outras para obedecer, que a riqueza é consequência do mérito e que a pobreza é quase sempre consequência de escolhas erradas. Repetiram tanto essas ideias que acabamos confundindo costume com verdade.
Mas basta olhar ao redor.
Trabalho todos os dias e ainda assim não tenho o suficiente. Produzo riquezas que não posso desfrutar, enquanto quem possui os meios de produzir acumula aquilo que meu trabalho cria. Quando os preços sobem, dizem que é a economia. Quando o salário não acompanha, dizem que é necessário apertar o cinto. Quando reclamo, lembram-me que existem milhões procurando emprego. E assim o medo de perder aquilo que tenho se transforma em instrumento para aceitar aquilo que não deveria aceitar.
Chamam isso de liberdade.
Sou livre para escolher onde trabalhar, desde que trabalhe. Sou livre para consumir, desde que tenha dinheiro. Sou livre para morar, desde que possa pagar. Sou livre para falar, desde que não incomode demais os interesses de quem possui poder. Sou livre para escolher entre alternativas que quase nunca fui eu quem criou.
E, quando a vida se torna insuportável, oferecem-me novas mercadorias, novas distrações, novas promessas. Mandam que eu compre aquilo que não preciso, deseje aquilo que não tenho e compare minha existência com a de quem aparenta viver melhor. Transformam necessidades em negócios e insatisfações em oportunidades de lucro. Até o desejo pode ser colocado à venda.
Enquanto isso, a autoridade permanece acima de nós.
Há sempre alguém autorizado a decidir. Um governo, um patrão, um policial, um juiz, um proprietário, um especialista, um chefe. Alguém que possui o direito de determinar o que deve ser feito e alguém que deve cumprir. E aprendemos desde cedo a obedecer antes mesmo de compreender por quê.
Talvez seja essa a maior vitória da dominação: não precisar mais de correntes quando conseguimos carregar a submissão dentro de nós.
Aprendemos a vigiar nossos próprios desejos. A limitar nossos sonhos. A considerar impossível aquilo que ameaça a ordem existente. A chamar de utopia qualquer tentativa de imaginar uma vida diferente. Quando alguém questiona o que parece natural, imediatamente aparece quem diga: “Sempre foi assim.” Como se a história fosse uma sentença e não o resultado das relações humanas.
Mas nada do que foi construído pelos seres humanos precisa ser eterno.
A propriedade, o Estado, o salário, as hierarquias, os privilégios e todas as formas de autoridade não nasceram gravados na natureza. Foram construídos historicamente. E aquilo que foi construído pode ser transformado.
É nesse momento que a consciência deixa de ser apenas consciência e se transforma em recusa.
Recusar não significa esperar que alguém venha nos libertar. Significa começar a romper, aqui e agora, com aquilo que nos ensina a aceitar a dominação como destino. Significa organizar a vida sem entregar a outra pessoa o direito de decidir por nós. Significa transformar solidariedade em prática, liberdade em responsabilidade e igualdade em relação concreta entre seres humanos.
Não quero um mundo em que simplesmente troquemos os donos. Não quero uma nova autoridade administrando a velha exploração. Não quero uma revolução que derrube um poder para colocar outro em seu lugar.
Quero que desapareça a necessidade de donos.
Porque talvez a verdadeira desordem não esteja em uma sociedade sem autoridade. Talvez a desordem esteja justamente neste mundo em que milhões trabalham sem conseguir viver, alguns acumulam o que pertence à coletividade, a violência é chamada de segurança e a submissão é apresentada como liberdade.
É contra essa normalidade que a anarquia se levanta.
Não para oferecer uma nova prisão com outro nome, mas para abrir espaço onde a vida possa finalmente pertencer a quem a vive.
Sem senhores. Sem servos. Sem donos da existência alheia.
A liberdade começa quando deixamos de aceitar como inevitável aquilo que apenas nos ensinaram a obedecer.
