Por LoBo – Fenikso Nigra

A oposição entre a social-democracia e o anarquismo não se limita à escolha de métodos. Ela nasce de diferenças mais profundas: duas concepções sobre a sociedade, sobre o indivíduo e sobre o próprio significado do socialismo. Das premissas teóricas distintas surgem, inevitavelmente, estratégias políticas distintas.

A social-democracia, especialmente em suas formulações alemã e russa, adotou o chamado “socialismo científico” e encontrou no marxismo sua principal referência teórica. Segundo essa concepção, o desenvolvimento social obedece a determinadas necessidades históricas, enraizadas nas formas de produção e troca. A estrutura econômica constituiria a base sobre a qual se ergueriam as instituições políticas, jurídicas e culturais. A consciência dos indivíduos seria, em grande medida, condicionada pelas relações materiais nas quais estão inseridos.

Nessa perspectiva, o socialismo não seria uma invenção política, mas o resultado necessário do próprio desenvolvimento capitalista. O capitalismo criaria as condições materiais para a grande indústria, a concentração da produção e a formação de uma classe trabalhadora numerosa. Ao concentrar riqueza de um lado e trabalho assalariado de outro, produziria também os agentes de sua própria superação.

A concentração econômica eliminaria progressivamente as pequenas e médias empresas, ampliaria o proletariado e aproximaria a sociedade de uma oposição cada vez mais nítida entre uma minoria proprietária e uma maioria assalariada. Quando o capitalismo se transformasse em obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas, estaria aberta a possibilidade da revolução social e da “expropriação dos expropriadores”.

Mas, para assumir a direção da produção e da terra, o proletariado precisaria primeiro conquistar o poder político. Daí decorreria a necessidade de um partido independente, organizado para disputar o Estado e utilizá-lo durante um período de transição. A ação parlamentar tornou-se, nesse modelo, instrumento privilegiado de propaganda, organização e conquista de posições políticas.

A expansão da social-democracia europeia demonstrou a força dessa estratégia. Partidos de massa, imprensa própria, organizações permanentes, funcionários e parlamentares permitiram uma presença crescente no interior das instituições estatais. Ao mesmo tempo, a influência adquirida por essas organizações reduziu o espaço para outras tendências socialistas, especialmente aquelas que rejeitavam a via parlamentar.

A ruptura tornou-se evidente em 1914. A eclosão da Primeira Guerra Mundial revelou os limites de uma Internacional que, diante do conflito entre os Estados europeus, não conseguiu preservar a solidariedade internacional que durante décadas havia proclamado. Para os anarquistas, o episódio confirmou uma suspeita antiga: quando a organização revolucionária se transforma em aparato político, sua própria estrutura pode começar a reproduzir a lógica do Estado que pretendia superar.

É justamente nesse ponto que o anarquismo se separa radicalmente da social-democracia.

Os anarquistas reconhecem a enorme influência das condições econômicas sobre a vida social, mas rejeitam a ideia de que elas determinem mecanicamente o curso da história. A sociedade não funciona como uma máquina submetida às mesmas leis que governam os fenômenos físicos. Podemos investigar o passado, identificar tendências, compreender relações e formular hipóteses; não podemos transformar a história em uma equação capaz de calcular antecipadamente o futuro.

A sociedade é feita de relações humanas. E seres humanos não são planetas obedecendo a uma órbita previamente determinada.

Por isso, a expressão “socialismo científico” é, para a crítica anarquista, problemática desde sua própria pretensão. O socialismo não pode ser tratado como resultado inevitável de uma lei histórica. Ele somente existirá se pessoas concretas decidirem construí-lo.

Não basta esperar que o capitalismo amadureça até produzir espontaneamente sua própria superação. Essa espera pode transformar a revolução em fatalismo. Acreditar que o sistema inevitavelmente dará origem ao socialismo significa correr o risco de substituir a ação consciente pela confiança passiva no curso dos acontecimentos.

O capitalismo pode produzir condições favoráveis à transformação social, mas também pode produzir guerra, autoritarismo, destruição e barbárie. A história não oferece garantias.

O socialismo não virá porque uma lei econômica determinou sua chegada. Virá se houver organização, consciência, solidariedade e vontade suficientes para construí-lo.

Essa diferença também aparece na maneira de compreender a formação da consciência social. Não é possível reduzir as ideias, os valores, a moral, a cultura e as instituições a simples reflexos da economia. Elas são influenciadas pelas condições materiais, mas também reagem sobre elas. Existe uma relação permanente entre as diferentes dimensões da vida social.

A economia influencia a consciência; a consciência pode transformar relações econômicas. As instituições condicionam os indivíduos; os indivíduos também podem transformar as instituições. A relação não é uma estrada de mão única.

O próprio Estado demonstra isso.

Ele não é apenas uma consequência passiva da divisão econômica da sociedade. Uma vez constituído, desenvolve interesses próprios, cria mecanismos de conservação e utiliza seus instrumentos para preservar as relações que lhe garantem existência e poder. Pode proteger a propriedade, reproduzir privilégios, administrar conflitos e manter determinadas divisões sociais.

Assim, uma instituição criada em determinado contexto histórico passa também a atuar sobre o contexto que a criou.

É precisamente essa reciprocidade que o determinismo econômico tende a obscurecer.

A crítica anarquista não afirma que as condições materiais sejam irrelevantes. Afirma algo diferente: elas não possuem o monopólio da explicação histórica. A vida social é resultado de múltiplas forças que se influenciam continuamente.

Por isso, não há razão para esperar que o capitalismo produza, sozinho, a consciência necessária para sua própria destruição.

A história oferece exemplos que desmontam qualquer sequência automática. Sociedades industrializadas não caminharam necessariamente para o socialismo, enquanto comunidades agrárias e sociedades menos industrializadas desenvolveram formas de cooperação e solidariedade que alimentaram movimentos socialistas e libertários.

O problema, portanto, não está em reconhecer a importância da economia, mas em transformá-la em destino.

Para o anarquismo, a emancipação não pode ser adiada para uma etapa posterior da história. Não pode depender primeiro da conquista do Estado, depois de sua utilização revolucionária e, somente então, de sua extinção. O instrumento utilizado para alcançar a liberdade já precisa ser compatível com a liberdade que se pretende construir.

A revolução não é uma sala de espera.

Se a organização revolucionária exige obediência absoluta, centralização permanente e concentração de poder, ela pode acabar reproduzindo exatamente as relações que pretendia destruir. Muda-se o nome do governante, muda-se a bandeira, muda-se o discurso — mas permanece a relação entre quem decide e quem obedece.

É por isso que o anarquismo insiste na organização direta, na autonomia, na federação e na participação daqueles que serão diretamente afetados pelas decisões. Não se trata de esperar que as condições históricas façam o trabalho por nós. Trata-se de construir, no presente, relações capazes de antecipar a sociedade que desejamos.

A diferença fundamental está aí.

Para a social-democracia, o desenvolvimento histórico e econômico conduz a determinadas condições que tornam possível a transformação socialista. Para o anarquismo, essas condições podem abrir possibilidades, mas nenhuma possibilidade se transforma em realidade sem ação humana.

Não existe destino revolucionário.

Existe escolha, conflito, organização e luta.

O futuro não está escondido nas engrenagens do capitalismo esperando o momento de ser libertado. Ele será aquilo que formos capazes de construir — ou aquilo que deixarmos que outros construam em nosso lugar.

Democracia social e anarquismo
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