Por ICN – Fenikso Nigra

Escrever exige liberdade plena. Mas basta abrir uma livraria para perceber o tamanho da pretensão: milhares de lombadas lado a lado, cada uma convencida de que tinha algo a dizer. Talvez estas linhas também virem letra morta, esperando alguém incrédulo o suficiente para ressuscitá-las por alguns minutos. A cada leitura, vida e morte se cruzam em ritmo imprevisível. O cortejo fúnebre desfila página após página.

A liberdade de escrever se forma no acúmulo de leituras ou basta um pensamento vago, único, que sustente a obra? A dúvida não reina absoluta sobre o animal humano — ele é negador da própria índole —, mas a cada tentativa de transferir algo ao papel, a aflição pelo tanto já feito pesa mais do que a obra em questão. Começar pela enésima vez traz o mesmo déjà vu. A página aceita tudo, e isso é agonizante: frustra qualquer tentativa de originalidade. Escrever é uma autotortura premeditada. Uma sombra plana sobre cada frase. Um trejeito que lembra outro, que não o próprio escritor, esfarela a obra. Aceitar a comparação, dizer-se pós ou pré, “ista” ou “ano”. A primeira frase termina antes que sua plenitude tenha sido assimilada.

Exercício de liberdade em que parâmetros? Criado neste sistema, nas condições de cárcere estudantil e de trabalho enfadonho sem escolha, toda esperança de liberdade vira sonho ruim. Tudo é repetição que caduca no ato da transmissão, e cada geração reaprende os erros e acertos da anterior. Novos paradigmas exigiriam novos horizontes — mas quantas vezes isso já veio à tona? A vanguarda anda sempre atrás de algo novo, e isso já está velho.

Há o desejo de destruir cada palavra, cada gesto, cada face, dissecar os flagelos humanos em busca de respostas que, reveladas, trariam luz ao que precisamos: liberdade. Tamanho niilismo é pretensioso e perigoso, e inumeráveis são os que o usam. Gasto, o niilismo não derruba mais, não destrói mais. Destruir é o caminho. Destrua o caminho, e o destruir, destruído, perde a diretriz e o sentido. Deslumbra-se a liberdade.

O que fazer, o que escrever com liberdade? Encher-se de perguntas, rodopiar com as palavras, criar circunlóquios e sentenciar com verborragia magistral. Ao término da primeira página, agonia. Cadê os heróis, os vilões, o enredo? Já vi isso em algum lugar, certeza de uma leitura passada que não sai da cabeça. Nossa limitação está em saber transferir ao papel, que aceita tudo, e que ao sabermos nos deixa em pânico. A plenitude de um texto, a genialidade de sua forma, é responsabilidade de um leitor insatisfeito com a própria leitura, desafiado a colaborar com os cemitérios das estantes. Quantas obras maravilhosas não estão enterradas nas páginas dos livros.

A liberdade é restringida pela capacidade comunicativa e interpretativa de cada um. Leitor e escritor cúmplices, o resultado é imprevisível. Mas danem-se os resultados: se o papel aceita tudo, se tudo já foi escrito, por que não deixar que as repetidas palavras preencham mais uma vez o vazio de cada página? Que importa se leitura e escrita tenham propósito quando se almeja liberdade? A plenitude nunca será sentida, e a angústia será lastro pesado, sobretudo quanto mais fundo se desce nesse abismo traiçoeiro do bicho homem.

Alma ao longe. Já se faz sentir o que espera: daqui a pouco, o silêncio. A temática se esvai com algumas linhas de efeito, e as folhas brancas se tornam cada vez mais selvagens, exigentes, impenetráveis. Sonda-se a mente à procura de palavras e linguagens de possível uso, mas que não se enquadram no que queremos. De que mais precisamos, copos de cerveja ou músicas ensurdecedoras? Rezar a Deus e ao diabo em busca vã de algo que não se tem, descer mais dentro do que consideramos mente ou alma, apertá-la, espremê-la até que um sumo sujo saia e com ele esboçar algo que nem a quem escreve cause impacto.

Talvez uma ajuda externa — mas que dilema: livros não são coelhos para procriar sem fim e sem sentido. Deixe as referências de lado. Academia é academia, e suas obras talvez tenham um pouco menos de pó do que esta que se esboça. Obra que se esboça. Isso deveria ser como um rio grande, que fluísse em dinâmica própria, sem preocupação com as margens nem com os saltos e fins.

Liberdade para escrever deveria ser caminho livre e sem peias. Livre, longe de qualquer definição. Ops — que não seja esta uma definição, porque logo que não se definirá. Aumento as palavras e as frases para que possamos contemplar a mediocridade, a vivacidade da enrolação. A cada momento, ao reler isso, tentando escrafunchar palavras para prolongar o fim já vaticinado, o vazio é elemento presente. Seria este um possível enredo para o que se forma, mas não seria definir o que se pretendia não ser?

Do vazio. Uma descrição, uma sensação de que os pedaços da mente não se conectam e que, isoladamente, funcionam em complexa ordem. Deixe que cada um faça a sua parte, cada sinapse conectada em um mundinho de lembranças mal arquivadas. Vazio sério, corroído por uma enchente de informações; nem tudo é necessário. A cada momento uma enxurrada mata mais espaços, e o efeito é que a indolência se manifesta e atormenta a composição até das frases mais simples. Embora possamos selecionar o que absorvemos, existe uma ditadura que invade: a ditadura da informação, mais e mais, sem critério. Não é possível falar de critério aqui, já que isso passa longe de algum. Daqui a pouco o vazio tornará a se opor ao cheio. Sentença após sentença, procura-se achar a liberdade, mas se limita a cada um. Encontrar os limites, fazê-los de forma legível mas não entendível — eis a questão que me sucede neste momento. Andar e divagar o mais devagar possível, deixar que as letras do teclado se aglutinem em formas escritas, como pinceladas de um quadro, e não predefini-lo. Sentir o papel absorver cada letra e a ela dar forma, formas no vazio que crio, que não mais o é por conseguir preenchê-lo. Existe um espaço aqui. Consegue vê-lo? Ele está bem aqui, entre eu que acabo de escrever e você que acaba de lê-lo. Espaço inadmissível que o vazio consegue deixar: um tempo para digestão, para considerar cada frase, para degustá-la, para relê-la. A cada momento deveriam mudar, mas não irão. Defino, mato aqui a ideia. Defino que o inesperado seja a forma, que as frases saiam a esmo, dadaísta, “ista”.

Alucinógenos à parte, usuários à parte, caretas à parte, num festim ao escrever pura e simplesmente palavras, letrinhas em prato de origami que forma um livro, mosaico subjetivo da tormenta da liberdade de escrever cheio de limitações, em uma cela, só celas e mais celas de um sistema. Especularia se, fora delas, qual o tom da escrita: mi ou dó, sol… sim, sol, luz, clarões de explosões de uma festa, da escrita por escrever, fragmentos de uma loucura mal resolvida, sem mais. Aquilo tudo, mais um pouco, sem critérios de parada. Adiante: veja o fim, e será o seu começo.

É necessária plena liberdade para escrever. De que fala o autor, o que entende o leitor e o que há nesse meio entre os dois? Do autor, o que sai, registra-se mesmo que imperfeito, mesmo sem devido sentido. Do leitor, que mundo abstrato esse indivíduo habitou. Personagem de ficção, obra remota do autor, no final não terá importância nenhuma, porque sua função aqui é lidar com o próprio mundo. E isso não acessarei com este texto. As palavras estão soltas como desenhos sem forma; com todas elas, entenda o que quiser, o que sua imaginação puder. O que eu puder, no mais rápido que posso, acentuando, formando palavras e conectando-as a fim de acionar alguma coisa em mim e em quem está à frente. Até aqui, o papel aceitou. Escrevi e alguém leu. Não se surpreenda se, em algum café escuro ou à luz do dia num gramado de faculdade, as pulsações dos textos continuem. Talvez até este se torne o foco da atenção de alguém que não eu. Transmitam a inquietação, achem os limites, desafiem a liberdade que consagram e limitam. A cada passo, a certeza: a liberdade se esvai como punhado de areia. Abra os olhos e olhe.

Ao redor, um deserto de liberdades, cada um enfurnado em seu mundinho livre, cheio de vícios e viço, centro de um eu que não eu. Que eu não entendo, mas vejo e escrevo, sem autorização (me processe). Cada um certo, mais certo do que a própria certeza. Absortos na ilusão de que são super-heróis, supervilões, homens e mulheres que se gostam e se odeiam, enredos sortidos já muito gastos pela pena humana. Humanos plúmbeos, empenados, evoluídos, secos nas convenções que assumem.

Dentro de cada um há uma forma para se desvendar. Solte-a, liberte-a. Faça isso antes que as raízes da conservação se tornem grandes demais. Liberdade, nosso mote — meu, ao menos. Não sou possessivo, e até ao luxo de esboçar uma vã teoria me atrevo. A cada gota de liberdade a mais, menos minha ela se torna, mais nossa ela é. A possibilidade de que isso desencadeie surtos do que chamam de loucura é bem grande. Alce voo, deixe as palavras fluírem sem corpo ao seu redor, convença-se de sua existência e pense, mais do que nunca pense, olhe com a mente, solte-a, faça rimas, leia várias vezes o texto acima, conecte-o ao mundo, cante-o ao mundo. É necessária liberdade para entendê-lo; quanto mais liberdade, mais entendível ele se torna.

De que fala ou escreve esse sujeito, afinal? Num mundo de certezas, a liberdade é subproduto perigoso, obra da demagogia e da hipocrisia. Querem-na e ao mesmo tempo temem-na. Que ela voe, mas com grandes correntes de aço inox e em meio ambiente arrasado de fumaça e azedo com nosso lixo, acumulado anos a fio em barcaças sem rumo.

O fel destes dias ainda durará muito tempo, e a liberdade ainda será um fim distante demais para qualquer mortal almejar. A cada passo desviando das fezes — preciosas como esmeraldas ou rubis —, está a essência de nossa terra. Os relâmpagos ao longe contam histórias de um tempo de primaveras, mas agora só os extremos, que cansam as pessoas e as deixam doentes.

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