
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
O saldo destas eleições, como das anteriores, é a confirmação de uma velha realidade: o cidadão desaparece no instante em que confirma seu voto. Até aquele momento, é cortejado, convencido, disputado. Depois, entrega a outro a responsabilidade de decidir aquilo que também é sua responsabilidade e a de toda a sociedade. Não se trata de uma simples delegação para uma tarefa específica, com prazo e finalidade determinados. É uma carta branca. Durante anos, alguém receberá o poder de decidir em nosso nome, enquanto a participação de quem votou se reduz, na melhor das hipóteses, a esperar que suas promessas sejam cumpridas.
É uma ruptura com a própria ideia de soberania popular. O poder que deveria permanecer nas mãos de quem vive os problemas é transferido para quem passa a administrá-los de cima para baixo. A velha imagem da raposa tomando conta do galinheiro continua atual, mas talvez seja necessário ir além dela: não basta expulsar algumas raposas e colocar outras no lugar. É preciso perguntar por que construímos um galinheiro no qual alguém precisa ter as chaves e alguém precisa ficar preso dentro dele.
De fachada, há prestação de contas, discursos, entrevistas, propagandas e uma avalanche de promessas. Gastam-se rios de dinheiro para construir imagens cuidadosamente calculadas, selecionar aquilo que será mostrado e esconder aquilo que não interessa mostrar. Cria-se uma aparência de proximidade com a população enquanto as decisões fundamentais continuam concentradas nas mãos de poucos. A esperança depositada na troca de representantes acaba funcionando como uma anestesia política: esperamos o próximo candidato, a próxima eleição, a próxima promessa. E, enquanto esperamos, deixamos de fazer aquilo que nenhuma urna pode fazer por nós.
A eleição oferece justamente essa ilusão: a de que escolher quem governará equivale a participar do governo da própria vida. Não equivale. Escolher entre candidatos não significa recuperar o poder de decidir. Significa escolher quem receberá o direito institucional de decidir em nosso lugar.
Os partidos fazem parte dessa engrenagem. Transformam a disputa pelo poder em profissão, organizam interesses, disputam recursos públicos e apresentam a conquista do Estado como caminho privilegiado para transformar a sociedade. Mas, quando a mudança depende daqueles que precisam ocupar o lugar de autoridade para realizá-la, a população novamente é colocada na condição de espectadora. Trocam-se os nomes, as bandeiras e os discursos, enquanto permanece intacta a relação fundamental entre quem manda e quem obedece.
É por isso que a questão não pode ser reduzida a descobrir qual candidato é mais honesto, qual partido é menos corrupto ou qual promessa parece mais convincente. A pergunta precisa ser outra: por que continuamos entregando a outras pessoas o direito de decidir aquilo que poderíamos organizar diretamente?
Também vimos, nestas eleições, a repetição do espetáculo das propagandas espalhadas pelas ruas, dos santinhos acumulados, dos carros de som, dos banners e das promessas que rapidamente desaparecem depois da apuração. Enquanto faltam recursos para tantas necessidades concretas, desperdiçam-se dinheiro, papel e energia para alimentar uma máquina eleitoral que reaparece a cada ciclo como se fosse inevitável. E ainda chamam isso de democracia.
Mas democracia não pode significar apenas escolher quem terá autoridade sobre nós. Se a população só é convocada para apertar um botão ou depositar uma cédula e depois deve voltar para casa e esperar, então estamos diante de uma participação cuidadosamente limitada.
A transformação social está longe das urnas porque nenhuma urna organiza uma comunidade, constrói solidariedade, enfrenta uma exploração ou devolve às pessoas o controle sobre suas próprias vidas. Isso exige ação. Exige organização. Exige que deixemos de esperar por salvadores e comecemos a construir, entre nós, as relações que queremos ver no mundo.
Enquanto não entendermos isso, continuaremos sob a mira dos partidos, das promessas e das mesmas estruturas que transformam nossa esperança em mandato.
Não espere mais dois anos para descobrir que nada mudou.
Acorde antes.
A política não começa quando alguém pede o seu voto. Começa quando você decide não entregar a ninguém aquilo que pode construir coletivamente.
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