Por Akracia – Fenikso Nigra

Você acorda antes do sol. Trabalha oito, dez, doze horas. O salário entra atrasado. O aluguel vence no dia certo. A comida aumenta. O ônibus aumenta. Sua vida diminui. Ninguém lhe pergunta se escolheu isso. Para a estrutura, sua escolha nunca importou. Importa apenas que você continue funcionando. Produzindo. Consumindo. Obedecendo.

Existe uma lógica organizando tudo isso. Não está escondida. Está no preço da comida. No valor do aluguel. No hospital lotado. Na polícia armada na periferia. Essa lógica tem um nome: o dinheiro como medida absoluta da vida.

Quando o dinheiro vira o único critério de valor, todo o resto pode ser sacrificado. A floresta vira mercadoria. O rio vira esgoto. A comida vira exportação enquanto quem planta passa fome. O trabalhador vira custo. A dignidade vira detalhe.

O capitalismo não precisa ser cruel para destruir vidas. Ele funciona destruindo vidas. Essa é sua engrenagem normal. Se o lucro exige salários miseráveis, haverá salários miseráveis. Se exige devastação, haverá devastação. Se exige despejo, fome ou violência, tudo será chamado de necessidade econômica. Não existe limite moral para uma estrutura construída sobre acumulação infinita. Existe apenas o limite do que as pessoas aceitam suportar.

Olhe para o Brasil. O trabalhador rural atravessa o sol do Mato Grosso para produzir riqueza que jamais verá. O latifúndio exporta bilhões. Ele continua sem terra. A terra que seus antepassados cultivaram foi roubada com sangue, expulsão e escravidão. Quilombos foram destruídos para abrir caminho à propriedade privada de poucos. Séculos depois, os herdeiros dessa concentração continuam decidindo quem come e quem passa fome. Quando o agrotóxico envenena a água, o lucro já foi distribuído. Quando a floresta cai, o dinheiro já mudou de mãos. O custo fica para o trabalhador, para a família dele, para o sistema público. O prejuízo é social. O lucro é privado.

É assim que a máquina funciona. E toda máquina precisa de proteção.

A polícia não surge do nada. O aparato repressivo existe para garantir ordem — mas ordem para quem? Quando trabalhadores fazem greve, a repressão aparece. Quando indígenas defendem território, a violência aparece. Quando pobres ocupam terra vazia, surgem choque e bala. A propriedade privada recebe proteção imediata. A vida humana espera na fila. Isso não depende da bondade individual de um policial. A estrutura exige função. Exige controle. Exige que milhões aceitem condições que jamais aceitariam se realmente fossem livres.

A forma mais profunda de opressão nem sempre vem da arma. Vem da ideia implantada na cabeça de que você merece pouco. Aprende-se desde cedo a agradecer pelo mínimo. Aprende-se que pobreza é fracasso individual. Aprende-se que milionários são “vencedores” enquanto trabalhadores exaustos são descartáveis. E assim o ciclo continua. O dinheiro entra. O dinheiro sai. A juventude desaparece trabalhando. Outra pessoa toma seu lugar. A engrenagem continua girando.

Mas nenhuma engrenagem é eterna.

O capitalismo não é lei da natureza. Foi construído historicamente através de colonização, escravidão e violência. E tudo que é construído pode ser transformado. A história prova isso. Quilombos provaram. Comunidades indígenas provaram. Cooperativas populares provam. Redes de solidariedade provam todos os dias nas periferias onde o Estado só aparece armado. Pessoas já viveram — e ainda vivem — organizando a vida por outros valores além do lucro.

O que impede mudanças não é falta de alternativa. É falta de poder coletivo para romper com a estrutura que lucra mantendo tudo exatamente como está.

Então a pergunta verdadeira não é se outro mundo é possível.

A pergunta é: quanto sofrimento ainda será considerado normal antes que as pessoas decidam mudar este?

Na luta somos pessoas dignas e livres!

O Dinheiro Não Escolhe Meios