Por Akracia – Fenikso Nigra

Todo mês a mesma sequência. As contas chegam: aluguel, comida, luz, internet. Um professor ganha dois mil reais. Uma vendedora, mil e duzentos. Um entregador trabalha doze horas por dia e vê o dinheiro desaparecer antes de depositar. A estrutura permanece simples. Todos produzem. Poucos ficam com o resultado.

Enquanto isso, o Brasil despeja 43 bilhões de reais em subsídios a bancos. Não é denúncia. É orçamento público. Está lá. Impresso e assinado. Os mesmos bancos que cobram juros de 20% ao mês de pessoas que ganham salário mínimo recebem dinheiro do Estado a uma taxa que mal cobre a inflação. A contradição não é acidental. É funcional.

A produção continua crescendo. Os dados são claros. A produtividade por hora de trabalho aumentou 45% na última década no Brasil. As pessoas trabalham mais eficientemente com máquinas, algoritmos, sistemas. O lucro sobe. Os salários estagnam. Alguém ganhou com o aumento. Não foram os produtores.

Essa é a pergunta que ninguém faz porque a resposta parece óbvia demais: por que decisões que afetam todos os dias de quem trabalha são tomadas por pessoas que nunca entraram numa fábrica, numa loja, numa cozinha de restaurante? Por que quem planta não colhe? Por que quem constrói não mora?

A concentração é mensurável. Os dez por cento mais ricos no Brasil controlam 67% da renda total. Não é metáfora. São números do IBGE. O topo da pirâmide se estreita enquanto a base se expande. Mais pessoas fazem mais coisas por menos dinheiro. O sistema não quebra. Prospera assim. Para alguns.

Imagine o inverso. Quem trabalha decide. Não elegem representantes que depois os ignoram. Decidem. Os operários de uma fábrica em Porto Alegre nos anos 1980 criaram cooperativas onde todos votavam nas metas de produção, nos salários, na distribuição do lucro. Funcionou. Os produtos saíram. O dinheiro circulou na comunidade. Ninguém ficou bilionário. Todos comeram. A experiência desapareceu quando o Estado e os bancos cortaram crédito. Não foi incapacidade. Foi escolha política.

No século XXI, as tecnologias de comunicação deveriam facilitar isso. Qualquer pessoa com um celular acessa informações que reis do século passado não tinham acesso. Mas o celular é fabricado em fábricas onde os operários não ganham o suficiente para comprá-lo. O código que roda nos servidores foi escrito por programadores que concordam com as ideias, mas que dependem do salário para alugar um apartamento numa capital. A rede que conecta tudo é controlada por empresas que cobram pelo acesso e lucram com a escassez. A ferramenta para libertação é gerida como instrumento de lucro.

Há uma palavra que ninguém usa mais: trabalho. Virou “recursos humanos”. A pessoa não produz mais. É um recurso. Como petróleo. Como cobre. Passível de extração, esgotamento, descarte. Quando a máquina substitui, o recurso humano é liberado. Ninguém diz “demitiu duzentas pessoas”. Diz “otimizou processos”.

A fome que o hino fala não é apenas de comida. É fome de tempo. De decisão. De reconhecimento de que quem trabalha é quem mantém tudo de pé. As ruas existem porque alguém varre. Os prédios existem porque alguém constrói. A comida chega porque alguém planta, colhe, transporta, vende.

Ninguém nega isso em palavras. Todos concordam que o trabalho é importante. Mas estruturalmente, o sistema trata como dispensável. Podem esperar por salário que não cobre as contas. Podem trabalhar em condições que destroem o corpo. Podem perder o emprego porque uma máquina foi mais barata. Podem não ter voz em nada que as afeta.

A síntese anarquista — não como palavra de ordem, mas como observação — sugere que quando as pessoas afetadas decidem, coisas funcionam diferente. Há cooperativas de crédito sem juros predatórios. Há fábricas ocupadas onde os lucros são distribuídos entre quem trabalha. Há comunidades que resolvem problemas sem pedir permissão para políticos. Não são solução universal. São possibilidades que existem, que funcionam, que poderiam escalar.

A pergunta que fica é simples e incômoda: se quem trabalha pode decidir e produzir sem patrão, por que o patrão continua existindo?

Na luta somos pessoas dignas e livres!

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