
Por Akracia – Fenikso Nigra
O Brasil alcançou um recorde. A taxa de desemprego caiu para 5,4%. São mais de 103 milhões de pessoas ocupadas. Os números estão em jornais, relatórios, apresentações de governo. Parece bom. Parece progresso.
Mas algo não bate.
A mesma pessoa que leu sobre esse recorde pode ter dormido com preocupação. Trabalha quarenta, cinquenta horas por semana. Ganha R$ 3.650 em média. Com isso paga aluguel, que subiu 12% no ano passado. Depois vem comida, energia elétrica — que também subiu —, transporte, telefone. No final do mês não sobra quase nada. Essa pessoa está empregada. Está na estatística de sucesso. E mesmo assim vive com as contas chegando e o dinheiro nunca chegando junto.
Isso não é coincidência. É estrutura.
A economia brasileira cresceu 2,3% em 2025. Mas a renda das pessoas trabalhadoras não acompanhou esse crescimento. Enquanto a economia expande, o custo de vida sobe mais rápido que os salários. Uma pessoa empregada em 2026 tem formalmente mais oportunidades que cinco anos atrás. Informalmente, controla menos sobre sua própria vida. O mercado criou postos de trabalho. Ótimo. Mas criou também uma concorrência permanente entre trabalhadoras e trabalhadores. Se você não aceita o que oferece, há dez outras pessoas na fila. A empresa sabe disso. Você também. Essa assimetria não aparece nos gráficos.
Trinta e oito por cento da força de trabalho permanece na informalidade. Sem direitos. Sem proteção. Sem previsibilidade. Isso significa que em um grupo de dez pessoas trabalhadoras, quase quatro delas não têm acesso a benefícios básicos, não têm contrato escrito, podem ser dispensadas sem aviso. Essas pessoas estão fora da contagem de desempregados. Estão sempre empregadas. E sempre precárias. A informalidade não é um problema a resolver. É uma solução para quem lucra. Permite pagar menos. Demitir sem custo. Exigir mais trabalho sem maiores consequências. Cria uma população constantemente nervosa, sempre buscando a próxima oportunidade de renda.
A estrutura funciona assim: o sistema precisa de pessoas disponíveis. Disponíveis para trabalhos de curta duração. Disponíveis para aceitar qualquer salário porque o aluguel vence amanhã. Disponíveis para mudar de função, de horário, de local. Essa disponibilidade permanente é vendida como oportunidade. “Você pode escolher seu próprio horário”, dizem as plataformas de trabalho sob demanda. O que significa: você trabalha quando quer, mas só ganha quando trabalha. Ninguém te dá férias. Ninguém te paga quando está doente. Você é um serviço, não uma pessoa.
Os que têm carteira assinada ganham estabilidade em comparação. Mas a estabilidade vem com um preço. Você está disponível para ser transferido. Disponível para ter seu horário alterado na semana. Disponível para aceitar “reorganizações” que significam mais trabalho pelo mesmo salário. A empresa que te emprega não te deve nada além do que está no contrato. Se há lucro, você não participa. Se há prejuízo, sua função pode desaparecer.
Quem manda em tudo isso?
Pessoas que você nunca viu. Acionistas de fundos de investimento. Conselhos de administração que se reúnem em cidades que não são a sua. Algoritmos que decidiram que sua função é redundante. Diretores financeiros que nunca entraram no chão de fábrica ou na loja onde você trabalha. Decisões que moldam sua vida são tomadas em ambientes que não incluem você. Você executa. Outros decidem. Essa concentração de poder é o normal. Não é exceção. É como o sistema se estrutura. Quanto maior a empresa, mais distante fica quem controla as decisões. Um banco decide cortar dez mil postos de trabalho em uma sexta-feira. Ninguém perguntou a essas dez mil pessoas o que achavam. A decisão partiu de uma preocupação com retorno aos acionistas. Pessoas são números em uma planilha.
Essa é a engrenagem do mercado de trabalho moderno. Não é um acaso que você seja demitido quando a empresa quer cortar custos. Não é coincidência que seu salário não suba enquanto a produção aumenta. Não é destino que você trabalhe mais a cada ano. É design.
O sistema diz que você é livre. Você pode procurar outro emprego. Você pode montar um negócio próprio. Pode se qualificar com cursos. Tudo tecnicamente verdadeiro. Mas essa liberdade tem um asterisco. Você só pode escolher entre opções que o sistema oferece. E todas elas têm a mesma lógica: trabalhe mais para ganhar mais, ou aceite ganhar menos.
Enquanto isso, o Brasil tem pleno emprego. Pessoas ocupadas. Estatísticas que funcionam. E uma pergunta que ninguém consegue responder no final do mês: por que trabalho tanto e vivo com tão pouco?
Essa pergunta é importante porque muda como você vê seu próprio cansaço. Muda como você vê a escolha de aceitar um salário que não cobre suas necessidades. Deixa de ser responsabilidade pessoal e começa a parecer engrenagem. E quando você vê a engrenagem, a pergunta seguinte é: precisamos dela?
Na luta somos pessoas dignas e livres!
