Por Akracia – Fenikso Nigra
Desemprego em 5,4%. Inflação controlada em 3,95%. PIB crescendo. Governo celebra melhores indicadores econômicos em mais de década. Especialistas falam de estabilidade. Mercado projeta continuidade.
Mas 48% da população avalia que economia piorou nos últimos 12 meses.
A contradição não é estatística. É política.
Indicadores macroeconômicos medem agregados. Desemprego de 5,4% significa que 94,6% da força de trabalho está ocupada. Parece ótimo. Até examinar que trabalho é esse. Entregador pedalando 12 horas por dia por R$ 40. Diarista sem direitos trabalhando três dias por semana. Vendedor autônomo sem renda fixa. Todos aparecem como “empregados” nas estatísticas.
Inflação de 3,95% dentro da meta impressiona economistas. Para família que gasta 70% da renda com alimentação, moradia e transporte, número geral significa pouco. Carne subiu 20%. Aluguel consome metade do salário. Passagem de ônibus ficou mais cara. Inflação sentida no orçamento doméstico não é a mesma medida pelo IPCA.
A discrepância entre macro e micro não é nova. É característica de economia que funciona bem para minoria e mal para maioria.
Crescimento do PIB distribui-se desigualmente. Agronegócio exportador bate recordes. Setor financeiro lucra bilhões com juros altos. Grandes empresas expandem. Mas trabalhador assalariado vê poder de compra estagnado. Pequeno comércio enfrenta crédito caro e vendas fracas. Periferia urbana não sente recuperação.
Os R$ 28 bilhões injetados na economia através da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil beneficiam 16 milhões de pessoas. Alívio real para quem recebe. Mas alívio de R$ 150 mensais não transforma realidade quando aluguel custa R$ 1.500, cesta básica R$ 800, transporte R$ 400. Economia no IR desaparece no custo de vida.
Juros a 15% ao ano são apresentados como necessidade técnica para controlar inflação. Na prática, travam consumo, encarecem crédito, protegem rentistas. Governo anuncia corte para 12,25% até final de 2026 como conquista. Mas 12,25% continua sendo juro real altíssimo por padrão internacional. Família que financia casa ou carro segue pagando parcelas pesadas.
A insatisfação capturada pelas pesquisas reflete essa realidade. Pesquisa Quaest de março de 2026 mostra que 48% avaliam piora econômica nos últimos 12 meses. Percentual mais alto em seis meses. Datafolha aponta 51% de desaprovação do governo. Não por ignorância econômica da população, mas por conhecimento direto das próprias condições materiais.
Economista Christino Áureo resumiu a contradição: “Embora a macroeconomia aponte inflação dentro da meta e índice de desemprego baixo, aquilo que o cidadão está percebendo não está sendo suficiente.” Não é percepção equivocada. É realidade que indicadores agregados não capturam.
Comparação internacional reforça esse diagnóstico. Países com desemprego similar e inflação controlada não enfrentam insatisfação popular do mesmo nível quando salários acompanham custo de vida, serviços públicos funcionam, crédito é acessível. No Brasil, indicadores macroeconômicos melhoram enquanto condições microeconômicas da maioria permanecem difíceis.
O FMI reduziu projeção de crescimento do Brasil para 1,6% em 2026, citando política monetária restritiva. Mesmo organismos internacionais reconhecem que juros altos freiam economia. Mas freio não é igual para todos. Rentista que vive de aplicações lucra com Selic a 15%. Trabalhador que precisa de crédito paga mais caro por tudo.
Eleições de 2026 ocorrem nesse contexto. Governo tenta capitalizar indicadores macro. Oposição explora insatisfação micro. Ambos disputam narrativa sobre mesma realidade. Mas narrativa não muda conta bancária de quem luta para fechar mês.
Experiências históricas mostram que estabilidade macroeconômica sem distribuição de renda não se sustenta politicamente. Argentina nos anos 1990 teve inflação controlada, câmbio estável, elogios de organismos internacionais. Desmoronou em crise social profunda quando maioria percebeu que estabilidade não chegava ao bolso.
Brasil de 2026 não está em crise como Argentina de 2001. Mas padrão é similar: economia funciona para alguns, sobrevive para muitos. Essa estrutura gera instabilidade política mesmo quando números macro parecem sólidos.
Alternativas existem mas exigem escolhas políticas diferentes. Priorizar salário mínimo real que acompanhe custo de vida. Investir em transporte público de qualidade que reduza gasto das famílias. Construir moradia popular que diminua peso do aluguel. Tornar crédito acessível sem juros extorsivos. Fortalecer serviços públicos que reduzam necessidade de gastos privados.
Cada uma dessas medidas tem custo fiscal. Mas também tem custo social não fazer nada enquanto indicadores macro melhoram e vida da maioria permanece difícil. Estabilidade econômica que não se traduz em bem-estar social é instabilidade política esperando para eclodir.
A discrepância entre números e realidade revela quem importa no modelo econômico atual. Indicadores são desenhados para medir o que interessa a quem decide política econômica. Desemprego oficial não distingue trabalho digno de precarizado. Inflação agregada não pesa mais alimentos que consomem renda de pobre. PIB cresce mesmo quando maioria não cresce junto.
Entre celebrar números que não chegam ao bolso e exigir economia que funcione para maioria, não há neutralidade possível.
Na luta seguimos — dignos, livres e indomesticáveis.
