
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Há um tipo de pessoa que carrega, com orgulho de campeão olímpico, certas convicções inabaláveis. São as convicções de quem nunca precisou testá-las.
Defendem a pena de morte com a desenvoltura de quem pede café sem açúcar. “Bandido bom é bandido morto.” A frase sai fácil, redonda, sem atrito — porque foi construída longe de qualquer tribunal, longe de qualquer cela, longe de qualquer espelho.
Aplaudem prisões superlotadas como se fossem política pública. “Direitos humanos para humanos direitos” — outro slogan que rima bem e pensa mal. Riem do preso que reclama de colchão fino, de comida ruim, de cela sem ventilação. Deveria pensar nisso antes, dizem, com a autoridade moral de quem nunca foi julgado por nada além do próprio gosto.
Então, um dia, a realidade bate à porta. E a porta é de ferro.
O processo, que antes era “coisa de vagabundo”, de repente revela “irregularidades gravíssimas”. O juiz, antes símbolo da ordem, vira “parcial e perseguidor”. A prisão preventiva, antes “necessária para a segurança da sociedade”, agora é “ilegal e arbitrária”. O advogado — contratado às pressas, dos caros — descobre que a Constituição é um documento lindíssimo, cheio de garantias, de due process, de dignidade da pessoa humana.
A dignidade da pessoa humana! Que redescoberta emocionante.
Pedem habeas corpus. Recorrem ao STF. Invocam tratados internacionais. Citam Nelson Mandela — aquele mesmo Mandela que, quando estava do lado de fora, seria chamado de “terrorista comunista” sem pestanejar. Falam em “lawfare”, em perseguição política, em Estado de exceção.
E a cela? A cela é pequena demais. A comida, ruim demais. O isolamento, desumano demais.
Desumano. A palavra aparece assim, de repente, no vocabulário de quem achava que desumanidade era um detalhe administrativo aplicável aos outros.
Não há aqui desejo de que alguém sofra. Muito pelo contrário. Celas dignas, processos justos e tratamento humanitário deveriam ser direitos de todos — do mais humilde réu ao mais poderoso ex-governante. É exatamente esse o ponto.
A crueldade do episódio não está na prisão. Está na trajetória. Está em anos defendendo um sistema de punição brutal para os pobres e, no momento em que o mesmo sistema aponta o dedo para si, descobrir que ele é, afinal, injusto.
A injustiça, percebe-se tarde demais, não era um recurso de gestão. Era um problema de princípio.
Mas princípio, como se sabe, é uma convicção que custa caro para sustentar quando a realidade muda de lado. E há pessoas que só descobrem o preço depois que já gastaram tudo defendendo o oposto.
O café, aliás, continua sem açúcar. Só o discurso ficou mais amargo.
