
Há uma pergunta que raramente é feita em voz alta, mas que organiza a vida de quase todas as mulheres: quem decidiu o que este corpo pode fazer? Quem determinou como deve parecer, quando pode sentir prazer, se pode ou não gerar vida, como deve se vestir para merecer respeito, até onde pode ir sem pedir permissão?
As respostas mudam conforme o lugar e o tempo. Mas a existência da pergunta — essa, permanece.
O corpo feminino foi tratado, ao longo da história, como território a ser administrado por outros. A família definiu sua função reprodutiva. A religião legislou sobre seu prazer. O Estado regulou sua capacidade de decidir sobre a gestação. A medicina substituiu saberes comunitários por autoridade centralizada. O mercado transformou sua aparência em produto e sua insegurança em lucro. Cada instituição produziu suas próprias fronteiras — e todas elas foram traçadas de fora.
Esse processo não foi uniforme. Teve cor, teve classe, teve geografia. O corpo da mulher negra escravizada no Brasil não foi apenas controlado — foi propriedade. Usado para o trabalho, para a reprodução forçada, para o prazer do senhor. A medicina colonial que se consolidou sobre esse território não chegou para cuidar: chegou para classificar, hierarquizar e substituir. As parteiras africanas e indígenas que transmitiam conhecimento sobre o próprio corpo entre gerações foram sistematicamente desqualificadas, perseguidas, silenciadas. O que se perdeu com elas não foi apenas técnica — foi autonomia. Foi a possibilidade de que o saber sobre o corpo feminino pertencesse às próprias mulheres e às suas comunidades.
Esse apagamento não foi acidental. Conhecimento é poder — e retirar de mulheres o conhecimento sobre seus próprios corpos foi uma forma precisa de manter dependência.
As mulheres zapatistas entenderam isso antes de 1994, quando produziram sua própria Lei Revolucionária das Mulheres. Não esperaram que a revolução chegasse para depois resolver a questão do corpo. Colocaram o corpo no centro: direito a decidir com quem se relacionar, quantas crianças ter, como participar da luta, como ocupar espaço dentro do próprio movimento. Foram fronteiras que traçaram por conta própria — não como concessão, mas como ruptura.
Em Rojava, no norte da Síria, mulheres kurdas construíram estruturas paralelas de organização — conselhos, forças de defesa, cooperativas — fundadas explicitamente na autonomia corporal e política como condição inseparável. Não havia projeto coletivo de liberdade que não passasse pela liberdade de cada corpo que o compunha.
A síntese anarquista, em suas múltiplas vertentes, entende que autonomia corporal não é direito individual a ser concedido por lei. É condição coletiva a ser construída. A lei pode reconhecer — mas não garante. Uma pessoa que vive sob dependência econômica, sob ameaça constante, sem acesso a saúde ou informação, não tem autonomia real mesmo que o Estado a declare livre no papel.
Construir essa autonomia de forma concreta significa rodas de conversa sobre saúde sexual e reprodutiva fora do controle médico institucional. Significa resgatar e valorizar saberes sobre o próprio corpo que foram suprimidos pela colonização. Significa redes de apoio para quem precisa interromper uma gestação em contexto de criminalização. Significa recusar tanto a tutela do Estado quanto a norma do mercado — que também produz suas próprias fronteiras, vendendo insegurança como produto e disciplinamento como beleza.
Nenhuma dessas fronteiras foi traçada por nós. E nenhuma delas precisa permanecer.
Na luta, nossos corpos são territórios que só nós habitamos!
