Por Akracia – Fenikso Nigra

Existe um desenho que se repete há séculos. Pessoas nascem em casarões enquanto outras nascem em cubículos. As primeiras aprendem que o mundo é um recurso a ser gerenciado. As segundas aprendem que o mundo é um obstáculo a ser superado. A educação não precisa ser explícita. Você cresce respirando. Absorbendo como o ar. E depois vem a ordem: matem-se mutuamente.

A história das guerras é a história de quem decide quem morre. Durante a Primeira Guerra Mundial, catorze milhões de pessoas foram matadas enquanto um punhado de famílias viu suas fortunas triplicarem. No Brasil, entre 1988 e 2023, 1,3 milhão de pessoas foram mortas por armas de fogo — em sua maioria pessoas pobres, pessoas pretas, pessoas que vivem em periferias. O padrão é sempre o mesmo: decidem longe. Matam perto.

Quem são os que decidem? Não vivem nas ruas onde as balas caem. Não enterram filhas. Não choram sobre caixões. Vivem em edifícios de vidro espelhado onde as janelas não abrem. Assinam papéis. Fazem telefonemas. E a próxima geração de pobres morre. No Brasil, o 1% mais rico ganha 28 vezes mais que o 50% mais pobre. Esta distância não é acidente. É escolha incorporada em leis, em salários, em quem tem acesso a informação. Quando vem a guerra — verdadeira ou de classes — quem decide morre em casa.

Este é o funcionamento básico da estrutura. Não é conspiração. Não é malvadez pessoal. É geometria pura. Quem concentra recursos tem poder de decisão. Quem tem poder de decisão pode impor sua vontade sem responder por ela. Quem trabalha segue ordens porque a recusa significa não comer. Significa ser evictada. Significa ter filhos sem escola. O soldado que atira no general morre fusilado. O soldado que atira na multidão de desempregadas ganha medalha. O mecanismo não precisa de convencimento. Precisa apenas de desespero bem distribuído.

Mas existe um ponto onde o desenho falha.

Há duzentos anos, mulheres e homens olharam para este mecanismo e decidiram que podiam recusá-lo. Não como indivíduos — o indivíduo que se recusa morre sozinho. Mas como força. Como multidão. Como corpo que diz não simultaneamente.

Em 1917, os soldados russos pararam de obedecer. Desceram das trincheiras. Abraçaram o inimigo. E um império caiu. Isso não é utopia. Isso é fato histórico. Três anos depois, mulheres e homens em São Paulo pararam as máquinas. Cruzaram os braços. Recusaram. O Estado desceu com armas. Matou centenas. Mas quando você cruza os braços, você cessa de fazer o que mantém aquela máquina funcionando.

Este é o núcleo da greve. Não é barganha educada. Não é negociação onde ambas as partes cedem um pouco. É retirada de consentimento. É reconhecimento prático de que o poder não flui de cima para baixo — ele flui de baixo para cima, através de você. Enquanto você segue ordens. Enquanto você entra na fábrica. Enquanto você obedece. Você é a máquina. Você é o que torna tudo possível. Quando você para, tudo para.

A Internacional — aquele hino que atravessou séculos — fala disso. Não fala de revolução romântica. Fala de reconhecimento. Fala de irmãos e irmãs que descobrem que têm o mesmo patrão. Que sofrem com as mesmas máquinas. Que morrem nas mesmas guerras decididas por quem nunca verá uma trincheira.

“Bem unidos façamos desta luta a final.” Não significa violência inevitável. Significa força organizada. Significa que quando você descobre que não está sozinha — que do outro lado da fábrica, em outra cidade, noutra língua, há alguém com as mesmas cicatrizes — algo muda. Você deixa de ser um problema individual e passa a ser um fato coletivo.

Isso assusta quem decide. Uma pessoa sem esperança é gerenciável. Uma multidão com consciência não é.

O desenho continua o mesmo. Ainda decidem longe. Ainda mandam matar perto. Ainda mandam trabalhar por migalhas. Ainda concentram tudo enquanto milhões não têm nada. Mas o reconhecimento não morre. A cada greve, a cada recusa, a cada momento em que trabalhadoras e trabalhadores se veem irmãs e irmãos — não como ideia abstrata, mas como realidade vivida — o desenho falha um pouco mais. Não é utopia. É descrição. É como funciona quando a corja vil nos quer como carne de canhão. E é como funciona quando deixamos de oferecer carne.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

Quando a corja nos ordena a matar uns aos outros