
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
A exploração não reconhece apenas uma forma. Quando observamos a realidade do trabalho contemporâneo, precisamos compreender como o sistema capitalista se alimenta de estruturas patriarcais que o precedem e que ele perpetua com sofisticação. Mulheres em todo o mundo vivenciam uma dupla — ou múltipla — opressão que revela como dominação de classe e dominação de gênero não são fenômenos separados, mas manifestações interligadas de um mesmo mecanismo de controle.
O capitalismo não inventou o patriarcado, mas o refinaria, o modernizaria, o tornaria invisível sob a ilusão da modernidade. A divisão sexual do trabalho preexistente encontrou no sistema capitalista seu aperfeiçoamento perfeito. O trabalho reprodutivo — aquele realizado majoritariamente por mulheres, dentro e fora de casas — permanece desvalorizado, não remunerado ou precariamente remunerado, sustentando toda a estrutura de acumulação. Enquanto a força de trabalho produz valor, alguém precisa reproduzir aquela força de trabalho através da alimentação, cuidado, limpeza, educação das próximas gerações. Historicamente, esse alguém foi nomeado mulher.
A metodologia crítica que questiona pensamentos dogmáticos reconhece que essa estrutura não é natural nem inevitável, mas construída através de relações de poder específicas. O patriarcado funciona como um sistema que predispõe estruturalmente quem pode comandar e quem deve obedecer, quem possui autoridade sobre corpos e decisões, quem acumula riqueza. O capitalismo incorporou essa predisposição e a aperfeiçoou, criando categorias de trabalho “feminino” marcadas por maior precariedade, menor remuneração, ausência de proteção e controle sobre o próprio corpo e tempo.
Observemos os números que confiram essa realidade: mulheres ganham menos pelo mesmo trabalho; ocupam funções de cuidado e limpeza em proporções esmagadoramente maiores; suportam duplas jornadas quando realizam trabalho produtivo e reprodutivo simultaneamente; enfrentam discriminação quando grávidas ou mães; são constantemente assediadas e coagidas nos ambientes de trabalho. Essa não é coincidência. É engrenagem.
O Estado capitalista, frequentemente visto como mediador neutro de conflitos, funciona como garantidor dessa estrutura patriarcal. Suas leis protegem a propriedade privada mas não o corpo das mulheres. Suas instituições replicam hierarquias: homens em postos de decisão, mulheres em postos subordinados. Seu aparato de segurança frequentemente protege agressores em vez de agressoras. O Estado não é ferramenta para libertar mulheres do patriarcado — é ferramenta para mantê-lo funcional ao sistema de exploração.
É precisamente nesse diagnóstico que emerge uma prática libertária fundamental: o feminismo anarquista. Não como apêndice ao projeto anarquista, mas como seu coração batendo. Organizar-se horizontalmente, sem líderes ou lideranças, exige recusar absolutamente o autoritarismo patriarcal. Não se constrói comunidade autogestionária mantendo metade da população subordinada. Não se imagina sociedade sem exploração mantendo mulheres como propriedade ou mão-de-obra desvalorizada.
Feminismo anarquista é prática cotidiana: mulheres em assembleias populares tomando decisões sobre suas vidas; trabalhadoras se organizando autonomamente sem aguardar sindicatos burocratizados; comunitárias criando redes de cuidado mutuamente sustentadas, sem delegar para Estado ou capital; todos os gêneros realizando trabalho reprodutivo, reconhecendo sua centralidade, distribuindo responsabilidades; corpos em liberdade, sem vigilância estatal, sem propriedade, sem sujeição.
Essa perspectiva não separa “questão de classe” de “questão de gênero”. Compreende que exploração econômica e exploração patriarcal operam simultaneamente, entrelaçadas. Lutamos contra capitalismo porque é sistema de exploração. Lutamos contra patriarcado pela mesma razão. Lutamos contra Estado porque garante ambos os sistemas.
A síntese dessa compreensão múltipla revela que libertação verdadeira demanda transformação radical simultânea: nas relações econômicas, nas estruturas de poder, nas dinâmicas de gênero, nas formas de organização. Não se trata de conquistar direitos dentro do sistema — trata-se de abolir o sistema.
Cada espaço de organização horizontal que reconhece profundamente a centralidade das mulheres, cada prática coletiva que recusa lideranças autoritárias, cada trabalho comunitário que valoriza o cuidado, aproxima-nos de mundo possível.
Na luta pelo fim simultâneo do capitalismo e patriarcado, somos pessoas dignas e livres!
