
Por Akracia – Fenikso Nigra
Há dois anos o pão custa mais. Há cinco o aluguel consome metade do salário. Há dez, quase ninguém pergunta quando isso vai parar. O padrão muda. A gente se adapta. E quando se adapta demais, deixa de notar: não é adaptação. É encolhimento.
A inflação que disparou em 2021 e 2022 não recuou da mesma forma para todos. No supermercado, no combustível, na conta de luz — caiu um pouco, depois estabilizou em um patamar alto. E o salário? Ficou para trás. Uma pessoa que ganhava R$ 2 mil em 2019 precisaria de cerca de R$ 2.800 em 2024 para manter o mesmo poder de compra. Na prática, chegou a R$ 2.200. A diferença não é matemática. É fome adiada. É remédio que não se compra. É filho que deixa de ir à escola porque o transporte ficou caro demais.
Diante disso, o crédito aparece como solução. Bate à porta com facilidade e promessa. O Brasil tem hoje mais de 77 milhões de pessoas endividadas. Isso não é só um número. São milhões de decisões diárias sobre o que cortar da própria vida para pagar o que já foi contraído. Cartão de crédito com juros que giram em torno de 140% ao ano. Cheque especial acima de 400%. Empréstimos que se apresentam como saída, mas frequentemente aprofundam a dependência.
O que leva alguém a se endividar não é falta de responsabilidade. É conta que não fecha. Ganha-se R$ 2.200. Divide-se um aluguel de R$ 1.500 entre quatro pessoas. Come-se e veste-se com o resto. Quando surge o imprevisto — doença, conserto, educação — não existe margem. O crédito não é escolha livre. É a única porta aberta. E, uma vez dentro, sair se torna cada vez mais difícil.
Esse cenário não é desconhecido. Ele é administrado. Uma população endividada tende a ter menos tempo, energia e segurança para se organizar, reivindicar e confrontar. Quem vive sob a pressão constante da dívida negocia o presente para sobreviver ao mês seguinte. Não se trata apenas de falha ou omissão. As decisões sobre o custo do dinheiro — juros, crédito, circulação — são concentradas em instituições distantes do controle direto da população. O orçamento público é atravessado por compromissos com o sistema financeiro. Propostas de redistribuição encontram barreiras estruturais tratadas como inevitáveis. A linguagem técnica transforma escolhas políticas em suposta necessidade.
Forma-se um tecido de instituições — financeiras, regulatórias, midiáticas — que delimita o que pode e o que não pode ser decidido. Um limite invisível que protege a acumulação e naturaliza a escassez.
Há quem funcione bem dentro disso. Não são milhões. São poucos. Pessoas com renda atrelada a ativos que se valorizam, ou protegidas da instabilidade que atinge a maioria. Para elas, o sistema entrega estabilidade. Para o restante, entrega adaptação constante à perda.
Para quem vive cortando comida para pagar luz, adiando cuidado para pagar dívida, o abandono não é exceção. É regra de funcionamento.
Quando a vida é organizada em torno da dívida, o controle não precisa ser explícito. O medo cumpre essa função.
Medo de não pagar. Medo de perder renda. Medo de faltar.
O medo reduz o espaço da pergunta. Reduz a possibilidade de encontro. Reduz a imaginação do que poderia ser diferente. E, ao mesmo tempo, reforça uma narrativa útil: a de que cada um é individualmente responsável por sua situação. Que faltou planejamento. Que sobrou gasto. Assim, a estrutura desaparece — e a culpa fica.
Mas há um ponto de ruptura possível.
Se esse sistema depende de pessoas cansadas, isoladas e endividadas, ele também depende que essas pessoas não percebam o que têm em comum. Depende que não se reconheçam. Depende que não se organizem.
Porque quando percebem, algo muda. A dívida deixa de ser destino individual e passa a ser condição compartilhada. E o que é compartilhado pode ser enfrentado.
Dignidade não é mercadoria. Não é algo que se compra quando sobra. É algo que se constrói junto — ou não existe.
Na luta, somos pessoas dignas e livres.
