Por ICN – Fenikso Nigra

Dizem que não se discute política nem religião. Mas, se não discutirmos, quem decidirá o que é certo ou errado? O silêncio, muitas vezes, é a maior das cumplicidades.

Hoje, é difícil saber onde termina o altar e começa o palanque. Mas o mais difícil, ainda, é ignorar que, por trás de cada discurso, há pessoas fazendo escolhas — e, portanto, assumindo responsabilidades.

O ópio do figurino

O político veste o terno da austeridade; o líder religioso, o manto da humildade. Mas o figurino não engana apenas os outros: engana, muitas vezes, a si mesmo. Diante do espelho, é fácil acreditar na própria virtude. O desafio real é olhar nos olhos de quem espera por justiça, por pão e por dignidade — e decidir, de fato, servir.

A escolha não está apenas no dizer, mas no fazer. Quem escolhe o lucro em vez do serviço, ou o poder em vez do cuidado, não pode culpar apenas “o sistema”. O sistema é feito de escolhas — e de quem as repete.

A transação e o silêncio

Entre o dízimo e a emenda parlamentar, há mais do que semântica: há pessoas. Pessoas que decidem cobrar, pessoas que decidem pagar e pessoas que decidem aceitar. E há também aqueles que, ao se calarem, autorizam o negócio a continuar.

A fé e o voto não são mercadorias por natureza. São transformados em mercadoria por quem escolhe vendê-los — e por quem escolhe comprá-los ou tolerá-los.

O banquete e a escolha

Enquanto alguns brindam com vinhos caros, outros dividem o pão — ou o que sobrou dele. Mas não se trata apenas de “ricos” contra “pobres”. Trata-se de quem escolhe fechar os olhos, de quem escolhe não perguntar e de quem escolhe não exigir.

A ganância não é uma fatalidade; é uma escolha. Assim como a omissão é uma escolha disfarçada de indiferença.

O despertar de todos

Nem todo líder é corrupto, nem todo fiel é ingênuo e nem todo eleitor é manipulável. Mas todos — líderes e liderados — têm responsabilidade sobre o que permitem, o que aplaudem e o que ignoram.

A verdadeira espiritualidade e a verdadeira política nascem do encontro com o outro, não do espelho do próprio interesse. O cenário só muda quando as pessoas decidem que o lucro fácil não vale mais do que a dignidade coletiva.

Porque, no fim, o sistema não é uma entidade abstrata. É o resultado das escolhas de cada um. A mudança começa quando alguém decide, enfim, ser responsável pelo que faz — e pelo que deixa de fazer.

O Balcão sob o Altar e o Comício
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