Por Akracia – Fenikso Nigra

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou nesta quinta-feira que a prévia da inflação de março ficou em 0,44%, pressionada principalmente pelos alimentos. Enquanto o índice geral desacelera, a comida continua subindo acima do restante dos preços. Alimentos e bebidas avançaram 0,88%, com impacto central no IPCA-15. A alimentação no domicílio subiu ainda mais: 1,10%. Açaí, feijão-carioca, ovos, leite longa vida e carnes puxaram a alta. Produtos que compõem a refeição cotidiana de milhões de brasileiros tornam-se mais caros justamente no país que se apresenta como potência agrícola.

A contradição não é episódica; ela é estrutural. O Brasil colhe safras recordes sucessivas de grãos, superando 300 milhões de toneladas em ciclos recentes, impulsionado sobretudo por soja, milho e exportações em larga escala. Ainda assim, a abundância produtiva não se converte automaticamente em alimentação acessível. Produzir muito não significa garantir acesso amplo quando a lógica dominante trata alimento прежде de tudo como mercadoria.

O país ampliou exportações, fortaleceu cadeias globais do agronegócio e consolidou sua posição entre os maiores produtores mundiais de soja, milho e carne. Mas arroz, feijão, leite, ovos e hortaliças — base da alimentação popular — continuam sujeitos a oscilações severas de preço. A produção orientada para exportação ocupa vastas extensões de terra, enquanto os alimentos destinados ao mercado interno permanecem expostos à instabilidade de custos, intermediação e especulação.

Em 2025, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da Food and Agriculture Organization, reduzindo a subalimentação extrema para menos de 2,5% da população. O resultado decorre de políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo, alimentação escolar e recomposição de programas públicos de compra de alimentos. Trata-se de avanço real e importante. Mas sair do mapa não significa eliminar a insegurança alimentar: milhões seguem convivendo com restrição quantitativa ou qualitativa no acesso à comida.

A fome diminui estatisticamente, enquanto a insegurança alimentar continua atravessando periferias urbanas, áreas rurais empobrecidas e territórios precarizados. Mesmo quem trabalha na produção agrícola frequentemente não consegue comprar com facilidade aquilo que ajuda a produzir. Pequenos agricultores vendem a preços comprimidos; atravessadores, distribuidores e grandes redes ampliam margens; o consumidor final paga caro.

Cada elo intermediário desloca valor para fora de quem planta e de quem consome. Não se trata apenas de logística: trata-se de poder econômico concentrado.

A inflação dos alimentos não decorre apenas de clima, safra ou custo de insumos. Esses fatores existem, mas seu efeito se intensifica quando cadeias de distribuição são controladas por poucos grupos econômicos, quando commodities agrícolas respondem à especulação internacional e quando o mercado externo se torna mais rentável que o abastecimento interno.

Quando o dólar sobe, exportar torna-se ainda mais vantajoso. Parte da produção destinada ao mercado externo passa a render mais do que vender internamente. Quando há expectativa de escassez, estoques podem ser retidos aguardando valorização. O resultado aparece na mesa: preços sobem mais rápido do que a renda de quem vive do trabalho.

A inflação alimentar pesa de forma desigual. Para famílias de renda alta, a alta do feijão representa desconforto marginal. Para quem vive com salário mínimo, cada aumento reorganiza toda a sobrevivência: comida, gás, transporte e aluguel passam a disputar o mesmo orçamento insuficiente.

Historicamente, a fome nunca foi apenas ausência física de alimentos. Durante a Grande Depressão, alimentos foram destruídos enquanto milhões passavam necessidade. Durante a Grande Fome Irlandesa, exportações continuaram enquanto a população morria. A lógica de mercado repetidamente demonstrou que produção abundante não impede privação quando o acesso depende exclusivamente da capacidade de compra.

No Brasil atual, essa contradição persiste: exportam-se bilhões em grãos e proteína animal enquanto alimentos básicos encarecem no varejo interno.

A agricultura familiar continua central no abastecimento interno, especialmente em feijão, mandioca, leite, hortaliças e produção diversificada. Mesmo ocupando parcela muito menor da terra agrícola do que o agronegócio exportador, ela sustenta grande parte da alimentação cotidiana. Ainda assim, enfrenta crédito restrito, dificuldade logística, assistência técnica insuficiente e acesso precário a mercados.

Programas públicos como compras institucionais, alimentação escolar e feiras livres demonstram que outra circulação alimentar é possível. Quanto menor a distância entre quem produz e quem consome, menor tende a ser a margem de extração por intermediários.

Experiências concretas já mostram isso. Feiras de agricultores familiares reduzem preço final e ampliam renda local. Cooperativas encurtam cadeias de distribuição. Hortas urbanas criam autonomia alimentar em bairros periféricos. Cozinhas solidárias socializam custos e garantem refeições onde o mercado exclui.

Cada circuito curto de abastecimento redistribui poder.

Cooperativas agrícolas, centrais públicas de abastecimento e restaurantes populares demonstram que a alimentação pode ser organizada por critérios de necessidade coletiva e não apenas de rentabilidade privada.

Mas soluções duradouras exigem enfrentar a estrutura que concentra terra, crédito, armazenagem e distribuição.

Enquanto vastas áreas permanecerem subordinadas à monocultura exportadora, a diversidade alimentar seguirá tensionada. Enquanto grandes redes varejistas e tradings concentrarem circulação e preços, a população continuará pagando pela intermediação concentrada. Enquanto alimento permanecer subordinado à lógica financeira, a abundância seguirá convivendo com privação.

A questão central não é produzir mais: é decidir para quem, como e sob que controle se produz.

Reforma agrária, fortalecimento de cooperativas, proteção de mercados locais, abastecimento público e redes solidárias de distribuição não são medidas marginais; são instrumentos concretos de democratização alimentar.

Cada feira livre preservada contra expulsão urbana amplia acesso. Cada assentamento agroecológico consolidado amplia soberania alimentar. Cada horta comunitária reduz dependência das grandes redes. Cada compra coletiva organizada por bairro diminui vulnerabilidade.

As respostas começam no território: grupos de consumo direto, apoio a produtores locais, cozinhas comunitárias, hortas compartilhadas, pressão por restaurantes populares e políticas de abastecimento descentralizado.

Toda vez que alimento deixa de circular apenas como mercadoria e passa a circular como necessidade social, abre-se uma fissura concreta na lógica que transforma fome em preço.

O discurso oficial celebra indicadores melhores, mas a inflação dos alimentos lembra diariamente que renda sem transformação estrutural continua limitada. Transferência monetária alivia urgências imediatas, mas não altera sozinha a concentração fundiária, o poder dos oligopólios nem a arquitetura desigual da distribuição.

Enquanto a comida seguir organizada prioritariamente pelo lucro, comer dignamente continuará condicionado à renda.

Os números revelam uma contradição que já não pode ser naturalizada: alimentos básicos sobem muito acima do aceitável enquanto a produção nacional bate recordes e as exportações avançam.

Não é falta de capacidade produtiva. É uma forma específica de organizar riqueza, terra e circulação.

Recusar essa lógica é primeiro passo. Construir alternativas coletivas é o segundo. Sustentar transformação estrutural é o decisivo.

Na luta, plantamos autonomia onde insistem em semear dependência.

Quando a Comida Vira Luxo: Inflação e Fome no País do Agronegócio
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