
Violência é condenável.
Pelo menos, é o que se repete constantemente.
Mas a condenação nunca é uniforme.
Depende de quem exerce.
Depende de contra quem é exercida.
Depende de quem controla a narrativa sobre o que conta como violência.
O Estado moderno se define, entre outras coisas, pelo monopólio do uso legítimo da força.
Essa é a formulação clássica de Max Weber.
Apenas o Estado pode exercer coerção física de forma reconhecida como legal.
Apenas suas instituições — polícia, forças armadas, sistema prisional — têm autorização social para usar violência.
Qualquer uso de força fora desse monopólio é tratado como ilegítimo.
Crime, vandalismo, terrorismo.
Mas essa divisão entre violência legítima e ilegítima não é neutra.
Ela é política.
E oculta algo fundamental: o monopólio estatal da violência não a torna menos violenta.
Apenas a torna mais organizada.
Mais sistemática.
Mais difícil de contestar.
Policiais matam.
Mas mortes cometidas por agentes do Estado raramente são tratadas como assassinatos.
São “confrontos”, “uso de força necessário”, “legítima defesa”.
Mesmo quando vítimas estão desarmadas.
Mesmo quando há execução sumária.
Mesmo quando padrões raciais e de classe são evidentes.
No Brasil, polícia mata mais de seis mil pessoas por ano.
Jovens negros e periféricos são maioria absoluta das vítimas.
Mas essas mortes entram em estatísticas como “resistência seguida de morte”, categoria jurídica que presume legitimidade da ação policial.
Quantos policiais são condenados?
Quantos sequer são julgados?
A violência estatal é sistêmica, mas naturalizada.
Prisões torturam.
Condições degradantes, superlotação, espancamentos, isolamento, privação de direitos básicos.
Tudo isso é violência.
Mas é violência legal.
Sancionada por tribunais, administrada por funcionários públicos, financiada com recursos do Estado.
Ninguém chama prisão de violência.
Chamam de justiça.
Despejos também são violentos.
Famílias arrancadas de suas casas.
Pertences destruídos.
Comunidades desfeitas.
Mas juízes assinam mandados, oficiais de justiça cumprem ordens, polícia garante execução.
Violência legal.
Violência do direito de propriedade.
Guerras são violência em escala industrial.
Estados mobilizam exércitos, bombardeiam cidades, matam civis.
Quando vencem, escrevem a história como defesa da liberdade, da democracia, da ordem internacional.
Quando perdem, são acusados de crimes de guerra.
Mas em ambos os casos, a violência foi praticada por Estados.
Com estruturas militares, orçamentos públicos, legitimação institucional.
Iraque, Afeganistão, Síria, Iêmen.
Centenas de milhares de mortos.
Violência legítima?
Ou apenas violência monopolizada por quem tem poder suficiente para justificá-la?
O interessante é o que não conta como violência.
Fome em um mundo que produz alimento suficiente para todos não é tratada como violência.
É “insegurança alimentar”.
Pessoas morrendo por falta de acesso a medicamentos que existem, mas custam caro demais, não é violência.
É “mercado farmacêutico”.
Trabalhadores adoecendo em condições insalubres, morrendo em acidentes evitáveis, não é violência.
É “risco ocupacional”.
Essa violência é estrutural.
Não tem rosto.
Não tem autor identificável.
É difusa, sistemática, contínua.
E exatamente por isso, raramente é chamada de violência.
Mas mata mais do que qualquer insurreição, qualquer protesto, qualquer ação direta.
Quando pessoas resistem a essa violência estrutural, aí sim a violência se torna visível.
Quebram uma vidraça, e vira manchete.
Bloqueiam uma rua, e é vandalismo.
Ocupam um prédio abandonado, e é crime contra a propriedade.
Nenhuma dessas ações mata.
Mas são tratadas como intoleráveis.
Enquanto isso, violência que mata silenciosamente — fome, falta de moradia, trabalho que adoece — segue invisível.
A questão não é se violência é aceitável ou não.
A questão é: por que apenas certas formas de violência são reconhecidas como violência?
Por que a violência dos oprimidos contra coisas é mais condenada que a violência dos opressores contra pessoas?
Por que quebrar vidraça de banco gera mais indignação que banco despejar família?
Por que incendiar ônibus em protesto choca mais que condições de transporte que matam por exaustão, acidente, estresse?
Não se trata de glorificar violência.
Mas de reconhecer que o mundo já é profundamente violento.
E que essa violência não é caótica.
É organizada.
Beneficia alguns, esmaga outros.
E quem mais se beneficia tem controle sobre o que será considerado legítimo ou ilegítimo.
Movimentos de libertação sempre enfrentaram esse dilema.
Resistir pacificamente pode ser esmagado sem custo político para opressores.
Resistir com força pode ser usado para justificar repressão ainda maior.
Não há resposta simples.
Mas há uma clareza: julgar ética da resistência sem julgar ética da opressão que a provocou é aceitar os termos de quem oprime.
A violência do oprimido contra estruturas de dominação não é moralmente equivalente à violência do opressor para manter dominação.
Uma reage.
A outra inicia e perpetua.
Mesmo quando ambas usam força física.
O Estado não tem monopólio legítimo da violência.
Tem monopólio do poder de definir o que conta como legítimo.
E usa esse monopólio para naturalizar a própria violência enquanto criminaliza resistência.
A legitimidade não vem da lei.
A lei reflete relações de poder.
Legitimidade vem de justiça.
E justiça não está do lado de quem mantém ordem violenta.
Está do lado de quem luta para destruí-la.
Questionar a violência é necessário.
Mas questionar apenas a violência dos que resistem, nunca a dos que dominam, é cumplicidade.
Violência estatal não é legítima porque é legal.
É legal porque Estado tem poder de legislar em causa própria.
E isso não é legitimidade.
É ilegitimidade monopolizada.
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