
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Existe uma disputa que antecede quase todas as outras. Antes de qualquer debate sobre salário, moradia ou representação política, há uma questão mais básica e mais violada: quem decide sobre o próprio corpo? Quem tem direito à dor, ao prazer, à reprodução, à aparência, ao movimento, ao descanso?
Para a maioria das mulheres no mundo, essa decisão nunca foi completamente sua.
O corpo feminino foi historicamente tratado como território a ser administrado — pela família, pela religião, pelo Estado, pela medicina, pelo mercado. Cada uma dessas instituições produziu normas sobre como esse corpo deveria parecer, funcionar, reproduzir, se vestir, se comportar. E cada vez que uma mulher desviou dessas normas, encontrou alguma forma de punição: social, jurídica, física, econômica.
Isso não é universal no sentido de inevitável. É universal no sentido de que atravessou culturas e séculos — o que significa que foi ativamente construído e ativamente mantido.
As parteiras africanas e indígenas que foram perseguidas pela medicina colonial sabiam de algo que os novos especialistas queriam apagar: que o conhecimento sobre o corpo feminino pertencia às próprias comunidades, transmitido entre mulheres por gerações. A colonização do corpo começou com a colonização desse saber — desqualificando práticas, criminalizando curandeiras, substituindo conhecimento comunitário por autoridade médica centralizada e masculina. No Brasil, esse processo se confunde com a própria história da escravidão: o corpo da mulher negra foi propriedade antes de ser paciente.
As Mães da Plaza de Mayo na Argentina, as zapatistas no México, as mulheres kurdas em Rojava — em contextos radicalmente diferentes, todas chegaram a uma conclusão semelhante: autonomia política começa com autonomia corporal. Não como metáfora, mas como prática concreta. As mulheres zapatistas produziram sua própria Lei Revolucionária das Mulheres em 1993, exigindo direito a decidir quantas crianças ter, com quem se relacionar, como participar da luta. Não esperaram que a revolução chegasse para depois resolver a questão do corpo — colocaram o corpo no centro da revolução.
A síntese anarquista, em suas múltiplas vertentes, entende autonomia corporal não como direito individual a ser concedido pelo Estado, mas como condição coletiva a ser construída. Isso significa algo diferente do liberalismo: não basta que a lei permita — é preciso que existam condições reais para que a decisão seja livre. Uma mulher que não tem acesso à saúde, que depende economicamente do parceiro, que vive sob ameaça constante, não tem autonomia corporal mesmo que a lei a declare sujeito de direitos.
A ação prática passa por criar essas condições: clínicas comunitárias autogeridas, rodas de conversa sobre saúde sexual e reprodutiva fora do controle médico institucional, redes de apoio para pessoas que precisam interromper gestações em contextos de criminalização, grupos de conhecimento do próprio corpo que resgatem saberes historicamente suprimidos. Passa também por recusar que o mercado substitua o Estado nessa gestão — a indústria cosmética, farmacêutica e alimentar produz suas próprias normas sobre como o corpo feminino deve ser, e lucra com a insegurança que gera.
Governar o próprio corpo não é conquista individual. É projeto coletivo — construído entre pessoas que reconhecem que nenhuma de nós é livre enquanto qualquer uma de nós tiver esse direito negado.
Na luta, nossos corpos são nossos territórios livres!
