
Por Akracia – Fenikso Nigra
Desde o fim de junho, o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã vinha sustentando uma frágil normalidade nos mercados de petróleo. Essa trégua foi rompida nos últimos dias: embarcações comerciais foram atingidas no Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo, e o governo americano respondeu com sucessivas ondas de bombardeios, atingindo dezenas de alvos em território iraniano. O presidente dos Estados Unidos declarou publicamente que o acordo de paz havia terminado. Marítimos ficaram presos na região sob fogo cruzado, rotas de navegação se tornaram inseguras por causa de minas, e o barril voltou a ser negociado acima de oitenta dólares. É nesse cenário, montado a milhares de quilômetros de distância, que o governo brasileiro decidiu adiar o fim do subsídio à gasolina.
O raciocínio oficial é conhecido: seria irresponsável repassar ao consumo interno um choque provocado por uma guerra que ninguém no país escolheu. Mas essa mesma frase, repetida por ministros e comentaristas, esconde o que deveria ser dito com todas as letras: a vida cotidiana de quem trabalha está amarrada, sem intermediação nenhuma, aos interesses de duas potências disputando controle sobre rotas energéticas e zonas de influência no Oriente Médio. Um ataque a um porto iraniano ou a três navios cargueiros se converte, em poucos dias, em variável direta no preço da gasolina em posto de esquina, no valor do frete, no custo da entrega. Não existe distância real entre o bombardeio no Golfo Pérsico e a fila do posto de combustível.
Primeiro, cabe notar que essa dependência não é acidental: é estrutural. A matriz energética global segue organizada em torno do petróleo e das rotas controladas por Estados armados, o que torna qualquer economia nacional refém de decisões tomadas por gabinetes de guerra situados do outro lado do planeta. Depois, é preciso perceber que o Estado brasileiro, diante dessa dependência, não oferece proteção real: apenas administra o repasse do choque, decidindo quando e quanto da conta será jogada sobre a população. O subsídio não resolve a dependência, apenas atrasa o momento em que ela aparece na tela do caixa. Por fim, resta evidente que a cautela anunciada pelo ministério não nasce de compromisso com quem sofre o aumento, mas de cálculo eleitoral: seguram-se preços quando a pressão popular ou o calendário político exigem, liberam-se quando a conta fiscal aperta.
Há algo perverso nessa engrenagem que vale nomear sem rodeios: guerras alimentadas por interesses de controle geopolítico e disputa por recursos acabam funcionando como mecanismo de disciplina econômica sobre populações inteiras, em países que sequer fazem parte do conflito. O medo de nova escalada, a instabilidade das cotações, a insegurança das rotas marítimas — tudo isso vira instrumento de gestão da vida de quem depende do carro para trabalhar, da moto para entregar, do caminhão para transportar comida. Enquanto isso, o mesmo governo garante que o imposto de exportação sobre o petróleo bruto permanece intacto, prova de que, mesmo em meio à crise, os fluxos de capital seguem protegidos com muito mais zelo do que o bolso de quem vive de salário.
Diante disso, confiar que o próximo anúncio do Ministério da Fazenda trará alívio duradouro é ignorar a lógica que rege toda essa engrenagem. Cada adiamento condicionado à cotação do barril reforça uma lição repetida: nenhuma vida organizada em torno de cadeias globais de energia fóssil, geridas por Estados armados e mercados especulativos, pode se dizer segura. Daí a urgência de fortalecer redes locais de produção, transporte e trocas, formas de organização direta e horizontal que reduzam, ainda que gradualmente, a dependência em relação a decisões tomadas em nome de guerras que a população nunca escolheu travar.
