Por Akracia – Fenikso Nigra

Nas redes sociais brasileiras, uma parcela crescente do debate público não acontece mais em jornais, rádios ou televisões — acontece em podcasts de formato longo, canais de vídeo e perfis de influenciadores digitais que acumulam audiências na casa dos milhões. Esse deslocamento muda quem fala, como fala, para quem fala e, principalmente, com que interesse fala. Muda também, de forma talvez ainda mais profunda, quem deixa de ser ouvido.

O dado mais perturbador desse cenário é a desproporção entre o alcance dos influenciadores e o de estruturas que historicamente organizaram a vida coletiva. Um único criador de conteúdo digital pode ter mais seguidores ativos do que todos os sindicatos de uma categoria profissional somados. Pode mobilizar mais reações em uma tarde do que um conselho comunitário consegue em um ano de reuniões. Pode pautar o debate de um bairro, de uma cidade, de um país inteiro — sem mandato, sem prestação de contas, sem nenhum vínculo orgânico com as pessoas que o consomem. Enquanto isso, associações de moradores fecham por falta de quórum, sindicatos perdem filiados, grêmios estudantis encolhem, e os espaços onde se construía consciência coletiva e ação organizada vão se esvaziando em silêncio.

Décadas de desmonte das estruturas de organização popular produziram esse vácuo — pela repressão direta em períodos autoritários, pela cooptação em períodos democráticos, pela reforma trabalhista que enfraqueceu financeiramente os sindicatos, pela lógica individualista que o mercado promove como valor cultural. O influenciador digital encontrou esse espaço aberto e o ocupou. Ao ocupá-lo, aprofunda o problema, porque oferece uma simulação de pertencimento e de voz que dispensa a construção coletiva real.

Por trás de cada canal bem-sucedido há marcas registradas, contratos de patrocínio, equipes de produção e estratégias de crescimento de audiência. Quando essa figura opina sobre eleições, direitos trabalhistas ou movimentos sociais, age como agente econômico cujo patrimônio depende diretamente da atenção que consegue capturar e manter. A confusão entre esse papel e o de um cidadão comum exercendo a liberdade de expressão é parte do mecanismo — e uma confusão que serve muito bem a quem lucra com ela.

A economia da atenção opera por uma lógica simples: o conteúdo mais rentável não é o mais verdadeiro nem o mais útil, mas o que mantém o público engajado por mais tempo. Polêmica, escândalo e conflito são formatos extremamente eficazes nesse modelo, criando um incentivo estrutural para produção de material cada vez mais inflamado. A radicalização de discursos, nesse ecossistema, é um produto rentável — não uma distorção a ser corrigida.

A diferença entre seguir um influenciador e participar de uma organização coletiva é de poder. Numa associação de bairro, num sindicato, num coletivo, as pessoas deliberam, constroem posições comuns, tomam decisões que afetam suas próprias vidas e as de quem está ao redor. O seguidor de um canal digital, por mais ativo que seja nos comentários, recebe, reage, compartilha — mas não decide nada, não constrói nada com ninguém, não acumula força coletiva nenhuma. A sensação de participação é real; a participação em si, não.

A lógica do mercado aplicada à produção de opiniões tende a substituir a organização horizontal e autônoma por figuras individuais de autoridade que falam para multidões, mas nunca com elas. Recuperar os espaços de construção coletiva real — o sindicato, o conselho, a associação, o coletivo de bairro — não é exercício de nostalgia. É uma necessidade urgente para qualquer projeto que leve a sério a ideia de que as pessoas devem ter poder sobre as próprias vidas.

A fábrica de opiniões: influenciadores digitais e o esvaziamento da organização coletiva
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