
Por Akracia – Fenikso Nigra
A tela acende. Um homem promete riqueza em trinta dias. Outra vende a dieta definitiva. Um terceiro ensina como ganhar dinheiro ensinando outros a ganhar dinheiro. São milhares todos os dias. Você vê. Talvez compartilhe. Continua rolando. E nada muda.
Isso não acontece por acaso. Foi desenhado assim. Existe lucro na sua distração. Existe poder na sua exaustão. Existe interesse em fazer você acreditar que problemas coletivos podem ser resolvidos individualmente. Que basta comprar o curso certo. Seguir a pessoa certa. Consumir o conteúdo certo. Enquanto isso, a vida continua cara, o trabalho continua precário e o isolamento continua crescendo.
A indústria de influenciadores movimenta 96 bilhões de reais globalmente. No Brasil cresceu 41% em três anos. Não faz isso vendendo produtos. Vende direção. Vende pertencimento. Vende a ilusão de que alguém já encontrou o caminho e você só precisa seguir. O algoritmo não é neutro. Ele organiza atenção. E quem organiza atenção organiza comportamento.
Mas a passividade não nasce de uma falha moral. Não é preguiça. Não é falta de inteligência. É consequência de uma rotina construída para desgastar. O trabalho consome o corpo. O transporte consome horas. A insegurança consome o descanso. Quando finalmente sobra tempo, sobra também um cansaço tão profundo que até pensar exige esforço. É nesse vazio que entram as promessas rápidas. É nesse vazio que a tela se torna anestesia.
E há interesse em manter tudo assim. Uma pessoa isolada compra mais soluções individuais. Uma pessoa cansada questiona menos. Uma pessoa convencida de que fracassou sozinha dificilmente percebe que milhões vivem a mesma condição. O sistema depende disso: transformar sofrimento coletivo em culpa privada.
Por isso tantos influenciadores duvidosos prosperam. Não porque sejam gênios manipuladores, mas porque ocupam uma função útil dentro dessa engrenagem. Alguns sabem exatamente o que fazem. Outros acreditam sinceramente que oferecem liberdade. O resultado, porém, costuma ser o mesmo: sua atenção drenada, seu tempo capturado, sua frustração transformada em consumo. Enquanto isso, aquilo que realmente ameaça estruturas de poder permanece enfraquecido. Organização coletiva. Confiança entre pessoas comuns. Apoio mútuo. Capacidade de decidir juntos como viver.
É aí que começa a alternativa.
Não existe liberdade construída sozinho. Existe apenas sobrevivência individual. Liberdade exige vínculo. Exige comunidade. Exige participação real nas decisões que afetam a vida cotidiana. Quando pessoas se organizam para resolver problemas juntas, algo muda. O isolamento perde força. O medo diminui. A dependência enfraquece.
Isso já acontece, mesmo que quase nunca apareça nas telas. Em bairros periféricos, coletivos criam comunicação própria para discutir saúde, moradia e violência sem depender da mídia tradicional. Em ocupações, pessoas organizam cozinhas coletivas e redes de cuidado. Em cooperativas, trabalhadores dividem decisões e recusam intermediários que lucram sem produzir. Não prometem enriquecimento rápido. Prometem algo mais difícil e mais real: dignidade, autonomia e apoio mútuo.
Nenhuma dessas experiências nasce de gurus. Nenhuma depende de salvadores. Todas dependem de pessoas comuns aprendendo a confiar umas nas outras novamente. Por isso é preciso desconfiar radicalmente de quem oferece respostas prontas para tudo. De quem transforma política em marca pessoal. De quem lucra com sua dependência emocional, financeira ou intelectual. E valorizar quem constrói junto. Quem compartilha risco. Quem permanece presente quando a câmera desliga.
Isso significa abandonar redes sociais? Não necessariamente. Significa deixar de tratá-las como centro da vida. Ferramentas podem servir às pessoas. O problema começa quando pessoas passam a servir às ferramentas. Quando toda revolta vira postagem. Quando toda indignação termina em consumo. Quando a sensação de participar substitui a participação real.
Nada muda porque alguém viralizou. Mudanças reais nascem quando pessoas criam laços duradouros, ocupam espaços coletivos, compartilham recursos e enfrentam juntas aquilo que nenhuma consegue enfrentar sozinha. O algoritmo quer espectadores. A vida precisa de participantes.
E participar exige algo que o sistema não oferece facilmente. Exige tempo roubado de volta. Exige coragem para desconfiar. Exige paciência para construir confiança em um mundo treinado para destruir vínculos. Exige aceitar que nenhuma transformação profunda cabe em vídeos de trinta segundos.
Mas quando pessoas deixam de apenas consumir e começam a se organizar, até estruturas que pareciam permanentes começam a rachar. Sozinhos somos público. Juntos decidimos como viver. Na luta somos pessoas dignas e livres.
