
Por ICN – Fenikso Nigra
Há uma estação que não existe nos mapas. Fica em algum lugar entre a utopia e a resignação, entre o que se imaginou e o que nunca chegou. Lá estão eles: os que esperaram.
Dona Maria chegou em 1985. Tinha trinta anos, os olhos brilhando de convicção, uma mala pequena com o essencial. Alguém lhe disse que em breve tudo mudaria, que a revolução viria como o metrô das sete da manhã. Ela abandonou o emprego no banco, beijou a mãe na testa e entrou na plataforma. Agora tem setenta e dois anos e ainda está lá, ainda está esperando.
Ao seu lado, Carlito, que chegou em 1992. Ele ainda usa a jaqueta desbotada que comprou para quando tudo mudasse. Não a tira porque sabe que o trem pode vir a qualquer momento, e ele precisa estar pronto. Os fios grisalhos saem por baixo do gorro de lã. Sua história se parece com muitas histórias: empréstimos para investir em “um futuro melhor”, amigos que foram embora dizendo que ele era ingênuo, uma namorada que o pediu para acordar. Ele acordou para a espera.
O casal dos Oliveiras também está lá. Eles se conheceram na estação — duas pessoas na mesma plataforma é quase um destino. Casaram-se entre os bancos de madeira gasta, com apenas testemunhas que também esperavam. Tiveram dois filhos. Uma das crianças nasceu perguntando quando chegaríamos. O outro nem fez perguntas.
Porque há crianças na estação. Crianças que nasceram ali, que comeram sanduíches moles de maionese perto de um relógio que parou em 1998. Para elas, a estação é o mundo inteiro. A revolução que seus pais esperam é uma história da avó, como contos de fada, mas com esperança mais dura.
Todos têm aquele olhar particular — um brilho que virou ferrugem. Os mais novos ainda olham para a curva da via com expectativa genuína. Os antigos apenas olham. Seus corpos se acostumaram ao banco de madeira. Suas costas se moldaram à forma de uma vida em suspenso.
De vez em quando, alguém chega dizendo que viu o trem passando em outra cidade. Que sentiu a brisa dele. O entusiasmo volta a queimar no peito de alguns. Outros apenas acenam com a cabeça, como quem ouve sobre um parente distante. Há os que saem da estação — alguns dizem que desistiram, outros que finalmente compreenderam que nunca houve trem. Mas geralmente voltam. A estação está no sangue. O hábito da espera se tornou mais forte que a coragem de partir.
Há café frio em uma garrafa térmica gasta. Há histórias repetidas tantas vezes que se tornaram verdades universais. Há partidas de dominó que duram anos. Há romances que começam com esperança e terminam com conformidade. Há sonhos que definharam, como plantas sem sol, em cantos esquecidos do terminal.
O chão é sujo. O relógio não funciona. As estruturas metálicas enferrujam lentamente. Mas ninguém sai. Porque sair significa admitir. Significa dizer que aqueles anos — dez, vinte, trinta anos — foram desperdiçados em um sonho que não era real. E essa dor é maior do que a dor da espera.
Às vezes, nas madrugadas silenciosas, Dona Maria se levanta e caminha até o final da plataforma. Fica ali, olhando a via vazia, e sussurra para si mesma: “Ele vem. Ele sempre vem.” Não é uma frase de esperança. É a frase de quem já perdeu toda a esperança, mas ainda precisa ter razão sobre algo.
A revolução viria em um trem que nunca passará. E em uma estação que ninguém construiu, os que acreditaram esperam ainda, cada dia um grão de areia em uma ampulheta que ninguém inverteu.
Porque às vezes a maior tragédia não é não chegar ao destino.
É escolher ficar na estação.
