
Você trabalha quarenta horas por semana. Talvez quarenta e cinco. A conta de luz aumentou. O aluguel consome parte significativa do salário. O transporte pesa. Seus filhos estudam em escola pública onde faltam recursos. Essa realidade não é exceção. É normal. É comum a milhões.
Enquanto isso, em Brasília, pessoas que você nunca viu votam sobre quanto seu dinheiro custa. Não perguntam. Não consultam. Votam. E o voto já saiu pronto de reuniões em lugares fechados, entre gente que se conhece há anos, que se financia mutuamente, que trabalha junto antes e depois de ocupar cargo.
O processo começa nas campanhas. Candidatos precisam de dinheiro para existir politicamente. O financiamento empresarial direto foi proibido em 2015. Mas empresas e grupos econômicos continuam exercendo influência por outras vias. Doações indiretas. Apoio institucional. Lobby. Financiamento de interesses que já estão organizados. Setores com maior capacidade financeira têm mais acesso a quem toma decisão. Estudos mostram isso. Dados mostram isso.
Segunda instância: o Congresso. O lobby é reconhecido, regulado de forma limitada, praticado abertamente. Representantes de bancos. De indústrias. De agronegócio. Participam de audiências. Propõem emendas. Sugerem ajustes técnicos. Conversam com parlamentares em reuniões que constam ou não de pauta.
A maioria das pessoas não dispõe de tempo, organização ou acesso para participar desse nível de influência. Trabalha quarenta horas. Cuida da casa. Paga contas. Quando chega eleição, escolhe entre nomes já negociados, já financiados, já filtrados. Escolhe, portanto, dentro de um conjunto que outros definiram.
Terceira instância: o reflexo disso em políticas públicas. Estrutura tributária que pesa proporcionalmente mais sobre consumo que sobre renda e patrimônio. Medidas econômicas que favorecem setores específicos. Cortes em educação. Limitações em saúde. Tudo dentro da lei. Tudo aprovado por representantes eleitos. Tudo legal.
O fato de ser legal não elimina a pergunta: quem é mais beneficiado?
Há alternativa visível disso. Quilombos historicamente decidiram em assembleias. Bancos comunitários que funcionam hoje decidem quem recebe crédito através de assembleias de sócios. Cooperativas de trabalho que existem há cinquenta anos decidiram horizontalmente e existem ainda. Não é fantasia. É realidade ao lado. Funciona. Distribui melhor.
Mas essas experiências permanecem pequenas. Marginais. Enquanto sistemas nacionais concentram poder e recursos. A tendência em estrutura concentrada é concentrar benefício também. Não é coincidência. É lei.
A pergunta que fica é outra: por que aceitamos que gente que não conhecemos, financiada por gente que não vemos, decida como seu salário é gasto? Por que partidos que vivem apenas de eleição precisam existir da forma que existem? Por que o dinheiro que você gera com trabalho flui para cidades distantes enquanto sua rua não tem água?
Não é raiva. É observação do funcionamento das coisas.
Na luta somos pessoas dignas e livres!
