
Por Akracia – Fenikso Nigra
Todo dia, toneladas de comida deixam de circular antes de chegar ao prato.
Parte se perde no transporte. Parte é descartada por aparência. Parte vence no estoque. Parte já nasce excedente porque produzir mais reduz custo unitário e aumenta margem de negociação.
No Brasil, cerca de 27 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas por ano, segundo estimativas recorrentes de instituições públicas e organizações do setor. Ao mesmo tempo, milhões de pessoas convivem com insegurança alimentar.
A mesma cidade que fecha restaurantes à noite com sacos de descarte abre a manhã com filas em cozinhas solidárias.
A lógica é simples. A produção não responde primeiro à necessidade. Responde ao cálculo.
O alimento sai do campo como mercadoria. Antes de ser refeição, precisa cumprir padrão. Peso. Tamanho. Cor. Resistência ao transporte. Tempo de prateleira.
Uma fruta torta perde valor antes mesmo de perder sabor.
Grande parte do que chega ao mercado foi escolhida para viajar, não para nutrir.
Nas últimas décadas, poucas empresas passaram a controlar sementes, fertilizantes, processamento e distribuição em escala internacional. Quando a mesma cadeia decide o que plantar, como embalar e onde vender, a variedade diminui.
A oferta parece ampla. O comando se concentra.
Em muitos supermercados, cinco corredores oferecem dezenas de marcas diferentes. Mas várias pertencem aos mesmos grupos empresariais.
A escolha existe na embalagem. A decisão já veio pronta.
Ao mesmo tempo, cresce o espaço dos ultraprocessados. Produtos duram mais. Custam menos para armazenar. Podem ser vendidos em qualquer estação. Têm publicidade contínua.
O alimento fresco depende de tempo. O produto industrial depende de repetição.
Uma refeição pronta pode circular por meses. Um tomate tem urgência.
Por isso o tomate oscila. O pacote permanece.
Entre 2020 e 2024, o consumo de bebidas açucaradas e produtos ultraprocessados continuou alto em diferentes faixas de renda no país, enquanto frutas e hortaliças seguiram mais sensíveis ao preço e à renda familiar.
Quando o salário encurta, a caloria barata avança.
A indústria conhece esse movimento com precisão. Cada faixa etária tem sabor planejado. Cada bairro recebe uma combinação de preço, embalagem e propaganda.
Não se vende apenas comida. Vende-se hábito.
Primeiro se estimula o consumo rápido. Segundo se normaliza o excesso. Terceiro se transforma o corpo em novo mercado, com dietas, suplementos e correções.
O mesmo sistema que oferece excesso vende contenção.
Uma promoção de dois pacotes quase sempre vale mais do que um produto necessário.
Levar mais custa menos. Comer mais parece natural.
Mas a saciedade não interessa quando a meta é giro constante.
A publicidade fala de energia, praticidade e prazer. Quase nunca fala de dependência comercial.
Há bairros em que é mais fácil encontrar refrigerante do que água potável de qualidade.
Há escolas cercadas por publicidade alimentar antes mesmo da primeira aula.
Há famílias que cozinham menos não por escolha, mas porque o tempo de trabalho foi ampliado e o gás pesa no orçamento.
Quando o tempo desaparece, a indústria entra na cozinha.
O desperdício também não acontece apenas no fim da cadeia.
No campo, parte da colheita fica sem destino porque o preço pago não cobre o frete. Em centrais de abastecimento, lotes inteiros perdem valor em horas. Em feiras, o alimento bom demais para descarte e frágil demais para transporte vira resto.
A abundância pode fracassar por falta de caminho.
Em várias cidades brasileiras, cozinhas comunitárias e bancos populares de alimentos mostram outra organização possível. Produtos próximos do vencimento são redistribuídos. Agricultores locais entregam direto. Menos embalagem. Menos intermediação.
Quando a distância diminui, a perda recua.
Experiências de cooperativas agrícolas no interior de Bahia, de redes comunitárias em Belo Horizonte e de compras públicas para merenda escolar mostraram, em diferentes momentos, que a circulação pode obedecer a outro critério.
A comida chega melhor quando não atravessa tantas mãos interessadas em margem.
Mesmo assim, essas experiências ocupam pouco espaço diante de contratos nacionais, redes de atacado e plataformas logísticas privadas.
Quem decide o que falta quase nunca sente a falta.
O desperdício não é acidente isolado. É parte de uma engrenagem que aceita perder toneladas para manter preço, marca e previsibilidade.
Nem toda fome nasce da ausência de produção.
Muitas vezes ela nasce da forma como a produção é distribuída.
Uma cidade pode ter estoque e escassez ao mesmo tempo.
Uma prateleira cheia não responde sozinha à pergunta principal.
Se há alimento suficiente, por que tanto depende de descarte para continuar valendo?
Talvez a questão não seja apenas quanto se produz. Talvez seja quem decide o percurso entre a colheita e a mesa.
Porque quando o lucro pede excesso, a falta deixa de parecer contradição e vira método.
Na luta somos pessoas dignas e livres!
