
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Existe uma confusão conveniente que o mercado faz questão de manter. Apresenta cooperativas, coletivos e formas de economia solidária como versões menores, menos eficientes ou mais primitivas da empresa capitalista convencional. Como se a autogestão fosse um estágio anterior ao verdadeiro desenvolvimento econômico — adequada para quem não tem acesso ao mercado real, mas não como alternativa a ele.
Essa confusão não é inocente. É ideológica.
Uma cooperativa gerida por mulheres não é uma empresa que não conseguiu crescer. É uma forma diferente de organizar a produção, a distribuição e o cuidado — fundada em princípios que o capitalismo ativamente combate: horizontalidade nas decisões, distribuição coletiva dos resultados, recusa da separação entre quem pensa e quem executa, integração entre trabalho produtivo e reprodutivo.
Na Índia, a SEWA — Associação das Mulheres Autônomas — foi fundada em 1972 por trabalhadoras informais: vendedoras ambulantes, catadoras, domésticas, artesãs. Hoje reúne mais de dois milhões de associadas. Não funciona apenas como sindicato nem apenas como cooperativa — é um híbrido que combina organização do trabalho, acesso a crédito, saúde, moradia e formação política. Recusa a separação entre luta econômica e luta por direitos porque suas associadas nunca tiveram o luxo de separar essas dimensões.
No Brasil, as catadoras de materiais recicláveis organizadas em cooperativas transformaram uma atividade de sobrevivência individual em força coletiva. O Movimento Nacional dos Catadores, com forte presença feminina, negociou com prefeituras, disputou contratos, construiu infraestrutura própria. Fizeram isso sem patrão, sem hierarquia formal, com assembleias que decidem desde o preço do material até as regras de convivência. Não é utopia — é prática cotidiana de autogestão em contexto de extrema precariedade.
Em Rojava, as cooperativas de mulheres não foram construídas após a revolução como recompensa. Foram construídas como parte constitutiva dela — como forma de garantir que autonomia econômica e autonomia política fossem inseparáveis. Mulheres que controlam seus próprios meios de produção não dependem de permissão para participar. Já estão participando.
A síntese anarquista, em suas múltiplas vertentes, entende a economia solidária não como alternativa caridosa ao capitalismo, mas como prefiguração — construção presente, concreta e imperfeita de relações econômicas que recusam a lógica do lucro como único organizador da vida coletiva. Não se espera a revolução para depois construir outra economia. Constrói-se outra economia como parte do processo revolucionário.
Isso tem implicações práticas imediatas. Significa priorizar consumo em cooperativas e coletivos geridos por mulheres, especialmente negras e periféricas. Significa construir fundos solidários que financiem iniciativas sem as condições leoninas do crédito bancário. Significa valorizar e tornar visível o trabalho de cuidado dentro das próprias estruturas econômicas alternativas — recusando reproduzir internamente a invisibilidade que se combate externamente.
A pergunta não é se é possível construir outra economia.
Já está sendo construída — nas feiras, nas ocupações, nas cooperativas, nas redes de troca, nos coletivos de produção que recusam ter patrão.
A pergunta é se vamos reconhecer essa construção como o que ela é: não adaptação ao sistema, mas sua recusa prática, cotidiana e persistente.
Na luta, produzimos juntas um mundo que nos pertence!
