Por Akracia – Fenikso Nigra

O Brasil encerrou 2025 com 6.519 pessoas mortas em ações policiais. Dezoito mortes por dia, todos os dias do ano. O número representa aumento de 4,5% em relação a 2024, contrariando tendência de redução em outros indicadores de violência El Financiero. Em dez anos, houve aumento de 170% nessas mortes El Financiero. Enquanto homicídios, feminicídios e latrocínios caem pelo quinto ano consecutivo, a letalidade policial cresce, evidenciando que polícia não é solução para violência, mas parte central do problema.
Em outubro de 2025, operação nos complexos do Alemão e da Penha no Rio de Janeiro deixou 121 mortos, tornando-se a mais letal da história do estado, superando o massacre do Carandiru em 1992, quando 111 pessoas foram mortas dentro da Casa de Detenção de São Paulo El Colombiano. São Paulo registrou seu ano mais letal em seis anos, com 877 mortes. O aumento no primeiro ano do governo Tarcísio de Freitas para 2025 foi de 60% Saiba Mais. A letalidade policial correspondeu a 22% do total de mortes violentas no estado UN News. Um em cada cinco assassinatos violentos paulistas foi cometido por polícia.

A distribuição geográfica e demográfica das mortes revela padrão claro. Bahia lidera com 1.569 mortes, seguida por São Paulo com 835 e Rio de Janeiro com 798 El Financiero. A esmagadora maioria das vítimas é do sexo masculino, 99,2% em todo país. Dentre essas, 82% são negras. O risco de uma pessoa negra ser morta pelas forças de segurança é 3,5 vezes maior do que o de uma pessoa branca UN News. Polícia não combate crime, controla territórios populares e extermina populações negras. É instrumento de genocídio, não de segurança.

O Estado não esconde essa realidade. Crescimento de letalidade policial em 2025 avançou em 17 estados, alcançando administrações comandadas por partidos de diferentes campos políticos GOV.BR. PT, PL, PSD, Republicanos, União Brasil, MDB, PSB e Novo governam estados onde mortes por polícia aumentaram. Não é questão de ideologia partidária, mas de função estrutural do aparato repressivo. Polícia existe para proteger propriedade privada e manter controle sobre populações consideradas perigosas ao sistema. Governos progressistas ou conservadores administram mesma estrutura de violência racista e classista.

A sustentação desse modelo se apoia em três pilares: operações de choque repetidas como resposta quase exclusiva a problemas complexos; dados pouco transparentes que atrasam controle social e dificultam comparações; e accountability ineficiente, com investigações que demoram, perícias vinculadas aos órgãos policiais que sequer preservam adequadamente cenas e pouca responsabilização efetiva El Colombiano. Discursos oficiais de “licença para agir” legitimam massacres. Governadores prometem tolerância zero e guerra às drogas. Populações aplaudem execuções sumárias. Cada operação fatal é apresentada como sucesso operacional, não como violação de direitos humanos.

Episódios em que suspeitos já rendidos são executados por policiais militares têm se tornado cada vez mais visíveis graças à proliferação de câmeras de segurança e gravações feitas por dispositivos móveis UN News. Câmeras corporais, apresentadas como mecanismo de controle, foram desativadas ou modificadas em São Paulo. Entre 2022 e 2024, mortes de crianças e adolescentes em decorrência de intervenções policiais cresceram 120% no estado. Em 2024, 34% de todas crianças e adolescentes vítimas de mortes violentas foram mortos por policiais Agência Gov. Um em cada três assassinatos de jovens é cometido por quem deveria protegê-los.

A história mostra que comunidades nunca dependeram de polícia para garantir segurança. O Partido dos Panteras Negras, fundado em 1966 em Oakland, Califórnia, organizou patrulhas armadas para defender população negra contra brutalidade policial. Baseados na Constituição norte-americana que garantia direito ao armamento e acompanhamento de operações policiais a certa distância, os Panteras “policiavam a polícia”. Não substituíram polícia por outra polícia, mas construíram autodefesa comunitária combinada com programas sociais: café da manhã gratuito para crianças, clínicas de saúde, assistência jurídica, escolas comunitárias, distribuição de alimentos e transporte escolar.

Os Panteras demonstraram que segurança real vem de comunidades cuidando de si mesmas. Seu programa de dez pontos exigia autodeterminação, emprego, moradia digna, educação que revelasse verdadeira história dos oprimidos e fim da brutalidade policial. Não pediam reformas policiais, mas libertação total da violência estatal. O FBI classificou o partido como uma das maiores ameaças à segurança interna, infiltrou agentes, assassinou lideranças como Fred Hampton em 1969 e destruiu estruturas do movimento. O Estado não tolerou exemplo de organização popular que dispensava sua polícia.

Experiências similares existem em outros territórios. Rondas campesinas no Peru organizam segurança comunitária em áreas rurais, substituindo polícia por assembleias que deliberam sobre conflitos. Polícias comunitárias indígenas em estados como Guerrero e Michoacán no México protegem territórios contra narcotráfico e corrupção estatal, respondendo a comunidades, não a governos. Comunidades quilombolas no Brasil historicamente resolveram conflitos através de anciões, assembleias e justiça restaurativa, sem necessidade de prisões ou violência policial.

Justiça restaurativa contrasta radicalmente com punitivismo. Em vez de perguntar quem deve ser punido e quanto deve sofrer, pergunta o que foi danificado, como reparar e prevenir. Comunidades zapatistas em Chiapas organizam justiça através de conselhos de anciões que medeiam conflitos buscando reparação, não vingança. Trabalho comunitário substitui encarceramento. Reintegração é objetivo, não exclusão permanente. Vítimas participam de processos decisórios sobre reparação. Essas práticas demonstram que segurança pode existir sem polícia violenta nem prisões superlotadas.

O abolicionismo penal não propõe simplesmente acabar com polícia e prisões sem construir alternativas. Propõe transformação radical das estruturas que produzem violência: desigualdade econômica, racismo estrutural, ausência de moradia, educação e saúde. Propõe investir em necessidades básicas em vez de armamento policial. Propõe autodefesa comunitária organizada horizontalmente. Propõe mediação de conflitos baseada em restauração. Propõe que comunidades decidam sobre própria segurança sem intermediários estatais violentos.

Reformas policiais não funcionam. Câmeras corporais não impedem execuções. Treinamentos sobre direitos humanos não mudam função estrutural da polícia. Investigações internas raramente responsabilizam assassinos fardados. Paradoxo evidencia problema: mortes cometidas por policiais crescem enquanto outros índices de violência caem. Se dizem que conflitos armados estão aumentando, por que apenas um dos lados morre? Saiba Mais Polícia não enfrenta criminosos, executa pobres e negros em territórios que Estado decide merecer morte.

Em 2025, 185 agentes de segurança foram mortos, queda de 8% em relação a 2024. Rio de Janeiro concentrou 42% dessas mortes. Suicídios entre policiais também caíram 13%, mas mantêm patamar alarmante: um agente tira própria vida a cada três dias no Brasil. Nos últimos dez anos, 1.303 agentes de segurança pública cometeram suicídio Vatican News. A estrutura policial destrói não apenas comunidades atacadas, mas também quem opera violência. Sistema que funciona através de medo, hierarquia e morte adoece todos envolvidos.

Ações práticas de resistência começam no território. Observatórios populares de violência policial documentam casos, pressionam investigações e denunciam impunidade. Redes de apoio a familiares de vítimas organizam solidariedade material e emocional, amplificam vozes silenciadas e mantêm memória de assassinados. Mediação comunitária de conflitos constrói alternativas concretas ao sistema penal. Cada disputa resolvida sem polícia, cada briga mediada por vizinhos, cada conflito transformado através de diálogo demonstra que segurança pode prescindir de violência estatal.

Resistência a operações policiais em favelas e periferias impede massacres anunciados. Moradores organizam alarmes comunitários, comunicação rápida sobre invasões e rotas de fuga para crianças. Coletivos formam brigadas populares de defesa que fotografam, filmam e denunciam abusos. Campanhas exigem desmilitarização imediata das polícias e fim de operações de guerra em territórios populares. Cada operação impedida, cada morte evitada, cada comunidade que resiste é vitória concreta.

Transformação estrutural exige desfinanciar polícia e investir em comunidades. Orçamentos policiais bilionários sustentam aparato de morte enquanto faltam escolas, hospitais, saneamento e moradia. Desviar recursos de armamento para necessidades básicas reduz causas estruturais de conflitos. Comunidades bem alimentadas, alojadas, educadas e saudáveis não precisam de polícia militarizada. Precisam de autonomia para resolver próprios problemas através de mecanismos horizontais.

A luta contra violência policial é luta pela vida em territórios historicamente abandonados e atacados. Não se trata de ter polícia melhor treinada ou mais transparente. Trata-se de construir segurança comunitária baseada em cuidado mútuo, não em repressão. Trata-se de justiça restaurativa que repara danos em vez de multiplicar violências. Trata-se de autodefesa organizada que protege comunidades sem reproduzir hierarquias estatais.
Enquanto houver 18 mortes policiais por dia, 82% delas de pessoas negras, em territórios onde faltam direitos básicos, a função da polícia estará exposta. Não protege, controla. Não serve comunidades, serve sistema de dominação. A escolha não é entre polícia violenta ou polícia humanizada. É entre manter estrutura que mata ou construir segurança desde baixo, com comunidades decidindo sobre própria proteção.

Não seremos mais alvos de guerra permanente. Somos pessoas que constroem paz onde insistem em plantar morte.

Da Polícia Que Mata
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