
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Poucas palavras despertam tanto desconforto quanto “ganância”. Quase ninguém gosta de ser chamado de ganancioso. Nas relações pessoais, a ambição sem limites costuma ser vista como defeito de caráter, capaz de destruir amizades, famílias e comunidades. Curiosamente, quando esse mesmo comportamento aparece no mundo dos negócios, recebe outros nomes. Fala-se em competitividade, crescimento, eficiência, maximização de resultados ou geração de valor. A palavra muda, mas a lógica permanece. Aquilo que seria moralmente condenado na vida cotidiana passa a ser amplamente valorizado quando amplia lucros e fortalece posições no mercado.
Não se trata de afirmar que toda pessoa que participa do capitalismo seja movida pela ganância. O ponto, segundo a perspectiva anarquista, é outro: o próprio funcionamento do sistema recompensa quem consegue acumular cada vez mais riqueza, patrimônio e poder econômico. A moderação pode ser uma virtude pessoal, mas dificilmente se transforma em vantagem competitiva dentro de um mercado organizado pela concorrência permanente.
Essa dinâmica aparece de maneira bastante simples. Uma empresa que decide reduzir voluntariamente seus lucros para pagar salários mais altos, diminuir a jornada de trabalho ou vender seus produtos por preços menores tende a enfrentar concorrentes que fizeram escolhas diferentes. Quem reduz custos, amplia margens de lucro e conquista mais mercado ganha capacidade de investir, comprar concorrentes e expandir seus negócios. Aos poucos, a própria competição seleciona quem consegue acumular mais. O crescimento deixa de ser uma possibilidade e transforma-se em necessidade para permanecer competitivo.
Nesse ponto, a ganância deixa de ser apenas uma característica individual e passa a exercer uma função econômica. O sistema não exige que cada empresário seja moralmente ganancioso, mas cria incentivos permanentes para que a busca por rentabilidade nunca encontre um ponto de chegada. Sempre existe um novo mercado a conquistar, um custo a reduzir, um concorrente a superar ou uma oportunidade de ampliar a rentabilidade. Quando o lucro deixa de crescer, investidores pressionam. Quando as margens diminuem, surgem cortes de custos, demissões e reestruturações. A lógica da acumulação passa, assim, a orientar decisões que afetam milhões de pessoas.
Essa racionalidade ultrapassa os limites das empresas e alcança toda a sociedade. Florestas transformam-se em ativos econômicos, moradias passam a ser tratadas como investimentos financeiros, e dados pessoais e atenção convertem-se em mercadorias. Um exemplo concreto ajuda a visualizar esse processo. Em 2021, os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário anteriormente prestados pela Cedae em diferentes regiões do Rio de Janeiro foram concedidos à iniciativa privada. A água continuou sendo um bem público, mas sua distribuição e operação passaram a ser executadas por concessionárias privadas mediante contratos de longo prazo. Independentemente da avaliação sobre essa política, o episódio ilustra como atividades essenciais à vida podem ser reorganizadas segundo mecanismos de mercado e relações contratuais entre Estado e empresas privadas. Pouco permanece completamente fora dessa lógica quando a expansão do capital se converte em objetivo permanente da economia.
O aspecto mais eficiente desse processo talvez seja a forma como ele é apresentado. Raramente se afirma que a sociedade deve valorizar a ganância. O discurso costuma recorrer à liberdade de mercado, à meritocracia e ao empreendedorismo. A acumulação de riqueza aparece como consequência natural do talento e do esforço individual, enquanto as estruturas que favorecem sua concentração permanecem em segundo plano. Histórias excepcionais de ascensão econômica recebem enorme visibilidade e alimentam a expectativa de que qualquer pessoa poderá alcançar o mesmo destino. Enquanto isso, a concentração de riqueza continua avançando, impulsionada muito mais pela propriedade acumulada, pelo controle de ativos e pela capacidade de investir do que exclusivamente pelo trabalho.
Segundo a perspectiva anarquista, essa dinâmica não representa uma distorção ocasional do capitalismo, mas uma consequência de sua lógica de funcionamento. Um sistema organizado em torno da propriedade privada dos meios de produção, da concorrência permanente e da acumulação contínua tende a ampliar diferenças de poder econômico ao longo do tempo. Nessa leitura, a ganância deixa de ser apenas um vício moral individual e passa a funcionar como um comportamento sistematicamente recompensado pelas próprias regras do sistema. Quanto maior a capacidade de acumular riqueza, maior tende a ser também a capacidade de exercer influência econômica, política e social.
Por isso, a crítica anarquista não se limita a condenar indivíduos considerados excessivamente ambiciosos. Pessoas podem agir com maior ou menor generosidade, honestidade ou solidariedade. O problema central, para essa tradição política, está em uma organização econômica que converte a expansão ilimitada da riqueza em medida de sucesso e faz da acumulação um princípio permanente de funcionamento. Enquanto o sucesso econômico continuar sendo medido principalmente pela capacidade de concentrar patrimônio e ampliar a rentabilidade, a ganância permanecerá, segundo essa perspectiva, menos como um desvio moral individual e mais como uma consequência previsível das regras que organizam o próprio sistema.
