
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Amanhã a urna fecha. E depois?
As urnas e seus votos eletrônicos serão contados, os vencedores proclamados, os derrotados lamentarão ou fingirão lamentar. A máquina eleitoral, que devorou meses de atenção coletiva, engolirá a própria cauda e entrará em letargo. Os outdoors serão arrancados, os jingles silenciados, os consultores de imagem embarcarão para outras campanhas, outras farsas, outros países onde a mesma peça será encenada com elenco local. E você, que anulou o voto, que votou ou que ficou em casa, continuará onde estava: no mesmo emprego precário, na mesma fila do posto de saúde, na mesma rua onde a polícia passa sem perguntar o nome, na mesma mesa onde o salário não fecha o mês.
A eleição não muda isso — ao menos não na velocidade e na direção que prometeram. E quem lhe garantiu o contrário, de boca cheia, estava vendendo alguma coisa.
Mas há algo que a eleição não consegue confiscar, por mais que tente. O tempo que você dedicou a pensar, a discutir, a questionar, a recusar — esse tempo não foi devorado pela urna. Foi investido em você. E amanhã, quando o circo desmontar e a cidade acordar com a ressaca da festa democrática, esse investimento vai continuar ali, disponível, esperando para ser gasto em outra moeda. Não em cédulas. Em ações.
Amanhã o vizinho ainda precisará de ajuda para não ser despejado. A escola ainda precisará de gente disposta a cobrar merenda decente. A fábrica ainda precisará de braços prontos para parar a correia quando a exploração ultrapassar o limite. O terreno baldio ainda precisará de corpos que o transformem em horta, em praça, em moradia. A rua ainda precisará de vozes que gritem quando a violência policial chegar. Nenhum desses gestos vai pedir autorização da justiça eleitoral, nem depender de fundo partidário, nem ser contado em pesquisa de intenção de voto.
A política que importa não começa no dia da eleição. Continua no dia seguinte — e no outro, e no outro —, feita de pequenas desobediências diárias, de solidariedades silenciosas, de perguntas que ninguém fez até que alguém, finalmente, ousasse formulá-las em voz alta. Ela não cabe em mandato de quatro anos, porque não é promessa. É prática.
Você anulou o voto. Recusou o cardápio. Fechou a porta do teatro. Agora respire. Olhe em volta: a cidade está aí, exatamente como estava antes, mas você não é mais a mesma pessoa que entrou na cabine. Deixou de ser cliente para virar protagonista — e protagonismo, no mundo real, não vem com holofote. Vem com lona plástica, com tinta de cartaz, com a voz rouca de quem gritou demais, com a paciência de quem sabe que ninguém muda o mundo sozinho, mas também sabe que o mundo só muda quando alguém decide começar.
Amanhã a urna fecha. Depois, a vida continua — agora, talvez, com uma diferença sutil e decisiva: você sabe que não precisa esperar mais quatro anos para ser ouvido. Já foi ouvido no gesto de recusa. E será ouvido de novo amanhã, quando a mão que anulou a cédula se estender para colar o próximo cartaz, para segurar a próxima mão, para erguer o próximo não.
A série termina aqui. A luta continua onde você estiver.
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