Por Akracia – Fenikso Nigra

A ideia de que a sociedade só pode funcionar sob governos centralizados é repetida como uma verdade absoluta. Desde cedo, somos ensinados que sem Estado haveria caos, violência e colapso das estruturas básicas de convivência. Essa narrativa, porém, ignora uma realidade concreta e amplamente observável: milhares de comunidades, em diferentes contextos históricos e geográficos, organizam suas vidas coletivamente sem depender de hierarquias burocráticas ou autoridades centralizadas. A questão central não é se viver sem governo é possível, mas por que essa possibilidade é constantemente negada.

A autogestão não é uma utopia distante nem um experimento raro. No Brasil, iniciativas comunitárias e cooperativas demonstram, na prática, que produção, distribuição e consumo podem ser organizados de forma democrática. Supermercados cooperativos, usinas de energia renovável geridas coletivamente e hortas comunitárias em territórios populares funcionam com base na participação direta das pessoas envolvidas, na divisão de responsabilidades e na eliminação de intermediários que concentram poder e lucro. Essas experiências mostram que decisões coletivas podem ser eficientes quando orientadas pelas necessidades reais da comunidade.

Em vários casos, o próprio Estado reconhece a viabilidade dessas formas organizativas ao destinar espaços e recursos para projetos de economia solidária, agroecologia e abastecimento comunitário. Ainda que essa relação seja marcada por contradições, ela evidencia que estruturas autogeridas não apenas funcionam, como são capazes de atender demandas sociais negligenciadas pelos modelos tradicionais.

Na América Latina, há experiências de autogoverno ainda mais amplas. Comunidades indígenas organizadas mantêm, há décadas, sistemas próprios de educação, saúde, justiça e produção econômica. Essas estruturas se baseiam em assembleias, decisões coletivas e rotatividade de funções, operando de forma territorialmente articulada e independente das instituições estatais. Não se trata de idealizar essas experiências ou negar seus desafios, mas de reconhecer sua durabilidade e capacidade organizativa em larga escala.

Historicamente, formas coletivas de organização social antecedem os Estados modernos. No território que hoje chamamos Brasil, povos indígenas praticavam trabalho comunitário e gestão coletiva da terra muito antes da colonização. Comunidades formadas por pessoas escravizadas que fugiram do sistema colonial criaram estruturas produtivas autônomas, baseadas no uso comum dos recursos. No meio rural, mutirões sempre foram uma forma eficaz de construir casas, plantar, colher e manter infraestruturas comunitárias. Experiências como Canudos e o Caldeirão representaram alternativas concretas à ordem vigente e foram destruídas justamente porque demonstravam que outras formas de viver eram possíveis.

A eficiência da autogestão também se manifesta em contextos urbanos contemporâneos. Projetos habitacionais organizados por trabalhadoras e trabalhadores mostram que, quando as decisões não são orientadas pelo lucro, é possível construir moradias mais amplas, com melhor qualidade e integração ambiental. Em alguns casos, esses projetos incluem áreas verdes coletivas, viveiros de mudas e ações de recuperação ambiental geridas pelos próprios moradores, combinando direito à moradia com cuidado do território.

O argumento de que a autogestão só funciona em pequena escala não se sustenta diante da realidade. Redes de cooperativas, federações comunitárias e sistemas de apoio mútuo conseguem coordenar atividades complexas sem necessidade de um comando centralizado. A existência do governo está profundamente ligada à administração das contradições do capitalismo e à proteção da propriedade privada dos meios de produção. Quando essas contradições não estruturam a vida social, muitas funções atribuídas ao Estado deixam de ser necessárias.

Em momentos de crise, essa dinâmica se torna ainda mais evidente. Durante a pandemia, diversas comunidades organizaram redes de solidariedade, distribuição de alimentos, apoio à saúde e cuidado coletivo, enquanto o poder público se mostrava ausente ou insuficiente. Quando o Estado falha, as comunidades se organizam. Quando essas organizações se mostram eficazes, frequentemente enfrentam tentativas de cooptação ou repressão.

Viver sem governo não significa ausência de organização, mas ausência de imposição por autoridades distantes. Significa que quem é diretamente afetado pelas decisões participa de sua construção. Assembleias abertas, responsabilidades rotativas, transparência no uso dos recursos e mandatos revogáveis são práticas comuns em territórios autogeridos. Longe de serem exceções, essas formas de organização já existem e funcionam em diversos lugares.

A propaganda estatal insiste que sem governo haveria violência generalizada. A história, no entanto, mostra que as maiores violências foram sistematicamente produzidas por Estados: guerras, genocídios, escravidão institucionalizada, encarceramento em massa e controle violento de fronteiras. Comunidades autogeridas tendem a desenvolver mecanismos próprios de mediação de conflitos, baseados na reparação e na restauração, e não na punição e no isolamento.

A transformação começa no território imediato. Organizar grupos de consumo coletivo, criar hortas comunitárias, estabelecer sistemas de troca direta, formar cooperativas de trabalho, ocupar espaços ociosos para uso comum e construir redes de apoio mútuo são práticas concretas que reduzem a dependência do Estado e do mercado. Cada uma dessas iniciativas fortalece a autonomia coletiva e amplia a capacidade de decisão sobre a própria vida.

O Estado quer nos convencer de que somos incapazes de nos organizar sem ele. A experiência cotidiana demonstra o contrário. Somos plenamente capazes de construir formas de convivência mais justas e eficientes quando não há autoridades intermediando, controlando e extraindo. Viver sem governo não é retornar a um passado idealizado, mas construir um futuro baseado em cooperação, horizontalidade e decisão coletiva. Milhares de comunidades já fazem isso. O desafio é ampliar essas práticas e defender os territórios onde elas florescem.

Na luta somos pessoas dignas e livres!

Viver Sem Governo é Mais Possível do Que Nos Fazem Acreditar
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