
Por Akracia – Fenikso Nigra
Chamam de trabalho aquilo que consome a vida de quem precisa sobreviver. Vendem dignidade, mas entregam dependência. Para quem não herdou propriedade nem privilégios, trabalhar nunca foi escolha real — é imposição cotidiana. Quando a alternativa é a escassez, o consentimento deixa de existir.
O cotidiano revela isso sem disfarces. Despertadores interrompem o descanso, transportes superlotados empurram corpos cansados para jornadas longas demais, salários insuficientes devolvem apenas o mínimo para continuar. O corpo se desgasta, a mente se esgota, o tempo desaparece. Ainda assim, exigem gratidão. Chamam exploração de oportunidade e apresentam submissão como virtude.
A lógica é simples e cruel: quem controla os meios de sobrevivência controla quem depende deles. O trabalho assalariado transforma tempo de vida em mercadoria. Cada hora cedida fortalece uma estrutura que concentra riqueza em poucas mãos e distribui insegurança para a maioria. Contratos e leis não corrigem isso — apenas organizam a desigualdade.
Quando alguém adoece, envelhece ou não consegue manter o ritmo, a culpa recai sobre quem caiu. Surgem narrativas sobre esforço insuficiente, escolhas erradas, falta de preparo. Nunca se questiona um modelo que exige produtividade constante e descarta quem não acompanha. O sistema permanece intocado; a responsabilidade é sempre individualizada.
A meritocracia cumpre um papel central nesse processo. Ela transforma desigualdade estrutural em falha pessoal e apresenta acumulação como virtude moral. Assim, a exploração parece justa e a coerção diária se disfarça de responsabilidade. Não é análise — é propaganda.
Trabalho poderia ser cooperação, criação coletiva, atividade voltada à sustentação da vida comum. Mas, sob o capitalismo, ele serve para manter hierarquias e alimentar a acumulação sem limites. Produz abundância concentrada enquanto distribui cansaço, ansiedade e medo de ser descartado. Não é o trabalho que liberta — é a forma como ele é imposto que aprisiona.
Enquanto a sobrevivência depender da venda do tempo, a liberdade será sempre parcial e revogável. Questionar o trabalho como ele nos é imposto não é recusa à vida em comum. É recusa ao sacrifício permanente em nome de um sistema que nunca se satisfaz.
A dignidade não nasce da obediência. Nasce da ruptura com relações que transformam a vida em recurso.
Retomar o controle sobre o tempo, sobre a produção e sobre a organização da vida não é utopia distante. É necessidade concreta de quem se recusa a existir apenas para manter a engrenagem funcionando.
Na luta somos pessoas dignas e livres!





