
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
Três lógicas organizativas distintas
Síntese, especifismo e plataformismo não são apenas variações estéticas do anarquismo organizado, nem simples diferenças de ênfase discursiva. Tratam‑se de lógicas organizativas distintas, que produzem práticas frequentemente incompatíveis em momentos decisivos da luta. Compreender essas diferenças em termos operacionais — isto é, como cada modelo funciona na prática — ajuda a evitar confusões, expectativas irreais e conflitos improdutivos, permitindo escolhas estratégicas mais conscientes.
O que segue não pretende esgotar o debate nem negar a existência de experiências híbridas. Trata‑se de uma comparação entre tipos ideais, construída a partir de tendências recorrentes observáveis em diferentes contextos.
Unidade tática: obrigação, afinidade ou possibilidade
Plataformismo
A unidade tática é um princípio organizativo central. As decisões federativas definem linhas de ação comuns que vinculam todos os grupos e militantes. Uma vez acordada coletivamente uma prioridade estratégica — por exemplo, concentrar esforços no trabalho sindical — espera‑se que toda a federação direcione suas energias nessa direção. Divergências táticas persistentes tendem a ser interpretadas como quebra de disciplina coletiva, levando à adaptação forçada ou à ruptura.
Especifismo
A coerência tática decorre de uma afinidade ideológica e estratégica construída previamente à federação. Quem se organiza já compartilha diagnósticos, objetivos e linhas gerais de ação. Por isso, a unidade não precisa ser imposta: ela é pressuposta. Grupos ou indivíduos que divergem de forma significativa tendem simplesmente a não se federar ou a se retirar quando a divergência se torna estrutural.
Síntese
A unidade tática não é ponto de partida, mas resultado eventual. Grupos com estratégias e táticas distintas coexistem na mesma federação, mantendo ampla autonomia. A convergência ocorre de forma pontual, em campanhas ou lutas específicas, sem eliminar a diversidade permanente de práticas. A pluralidade tática é entendida como um recurso político, não como um problema a ser corrigido.
Situação concreta: uma federação debate como responder a uma reforma trabalhista regressiva.
- Plataformismo: define‑se uma linha única (por exemplo, greve geral) e todos os grupos mobilizam nessa direção.
- Especifismo: grupos já alinhados decidem conjuntamente uma estratégia coerente com sua linha prévia (por exemplo, inserção em sindicatos combativos).
- Síntese: um coletivo prioriza a greve, outro investe na construção de cooperativas, outro produz material de agitação. As iniciativas podem ou não se reforçar mutuamente, sem obrigação de uniformidade.
Inserção social: direção política ou pluralidade de vínculos
Plataformismo
Busca construir uma organização anarquista específica, com alto grau de coesão, que atua nos movimentos de massa como polo de orientação política. Embora rejeite a forma partidária clássica, atribui à organização um papel dirigente no sentido de elaborar estratégia, acumular experiência e intervir de forma coordenada para elevar o nível de consciência e organização das lutas.
Especifismo
Distingue claramente organização política anarquista e movimentos sociais amplos. A militância se dá por meio de uma dupla inserção: atuação organizada nos movimentos e pertencimento simultâneo à organização específica. O objetivo é influenciar politicamente sem subordinar os movimentos à organização anarquista.
Síntese
Reconhece a multiplicidade de formas de inserção social. Anarquistas podem atuar em organizações explicitamente libertárias, em coletivos mistos ou em espaços onde sua identidade política não é central. Alguns militantes transitam entre diferentes frentes; outros concentram esforços em um único espaço. Não há um modelo único ou normativo de inserção.
Situação concreta: um movimento indígena convoca aliados para uma ação de resistência territorial.
- Plataformismo: a organização define coletivamente sua posição e envia uma delegação com orientação política comum.
- Especifismo: militantes participam levando a análise anarquista e posteriormente prestam contas à organização.
- Síntese: diferentes coletivos respondem conforme suas capacidades e leituras: presença física, apoio material, difusão política ou articulação externa.
Tomada de decisão: centralização vinculante ou coordenação flexível
Plataformismo
As decisões tomadas em instâncias federativas têm caráter vinculante. Após o debate interno, delibera‑se — frequentemente por maioria — e a decisão passa a orientar a ação de toda a federação. Na prática, isso tende a operar segundo uma lógica de discussão interna ampla seguida de unidade de ação, aproximando‑se de formas adaptadas de centralismo democrático.
Especifismo
As decisões são geralmente tomadas por consenso entre membros que já compartilham uma base política comum. Divergências profundas são menos frequentes, pois a convergência ideológica é prévia. Quando surgem impasses estruturais, a tendência é a cisão organizativa, não a convivência prolongada do dissenso.
Síntese
As decisões federativas têm caráter coordenativo, não impositivo. Grupos se comprometem com aquilo que aprovam e consideram pertinente às suas práticas, sem obrigação de executar decisões que rejeitaram. A federação se sustenta em consensos mínimos — princípios éticos e antiautoritários — convivendo com dissensos táticos duradouros.
Situação concreta: a federação debate apoiar uma candidatura popular em eleições municipais.
- Plataformismo: delibera‑se. Se a maioria aprova, todos participam da campanha ou se retiram da federação.
- Especifismo: o debate dificilmente ocorreria, pois a afinidade prévia já teria definido a posição.
- Síntese: grupos favoráveis participam, grupos contrários não. Avaliações posteriores são feitas sem sanções organizativas.
Relação com outras vertentes anarquistas
Plataformismo
Mantém uma relação crítica e frequentemente conflitiva com correntes como o insurrecionalismo e o individualismo, vistos como politicamente limitados ou incompatíveis com a estratégia organizativa proposta. O objetivo é disputar hegemonia dentro do campo anarquista e atrair militantes para seu modelo.
Especifismo
Trabalha prioritariamente com quem compartilha sua estratégia. As fronteiras ideológicas são bem demarcadas, e a cooperação com correntes divergentes é limitada ou inexistente.
Síntese
Propõe a convivência federativa de diferentes vertentes anarquistas — comunistas libertários, mutualistas, insurrecionalistas, entre outras — desde que respeitem princípios mínimos antiautoritários. O conflito político não é eliminado, mas internalizado como parte da dinâmica organizativa.
Situação concreta: um grupo insurrecionalista propõe uma ação direta contra um símbolo estatal.
- Plataformismo: avalia‑se se a ação serve à estratégia coletiva; caso contrário, ela é vetada ou o grupo é afastado.
- Especifismo: o grupo provavelmente não integraria a organização.
- Síntese: o grupo age autonomamente. Outros coletivos podem apoiar, criticar ou simplesmente não se envolver.
Por que essas diferenças importam na América Latina
- Repressão desigual e seletiva: a síntese permite diferentes níveis de exposição pública. Alguns grupos atuam abertamente, enquanto outros preservam práticas discretas ou clandestinas. Modelos mais uniformizantes tendem a nivelar riscos e ampliar a vulnerabilidade coletiva.
- Diversidade de sujeitos e lutas: movimentos indígenas, quilombolas, urbanos e camponeses operam com temporalidades, linguagens e objetivos distintos. A síntese facilita a atuação anarquista em múltiplas frentes sem forçar sua tradução em uma estratégia única.
- Fragilidade organizativa histórica: estruturas rígidas sofrem mais com repressão e perdas de quadros. Em modelos fortemente centralizados, a neutralização de núcleos dirigentes pode paralisar toda a federação. A autonomia dos grupos na síntese aumenta a capacidade de sobrevivência e continuidade.
Limites de cada modelo
- Plataformismo: pode ser altamente eficaz em contextos de forte organização operária e clareza estratégica, mas corre o risco de reproduzir dinâmicas autoritárias quando a maioria impõe sistematicamente suas decisões à minoria.
- Especifismo: apresenta grande coesão interna, porém tende a crescer lentamente. A exigência de afinidade prévia limita a ampliação e pode gerar fechamento sectário.
- Síntese: a flexibilidade pode se converter em dispersão. Sem uma cultura política madura, a autonomia pode gerar isolamento entre grupos, conflitos prolongados não resolvidos e baixa eficácia coletiva.
Escolha estratégica, não ecletismo
Defender a síntese não significa recusar critérios, nem aceitar qualquer prática em nome do pluralismo. Significa reconhecer que, nas condições concretas da América Latina, a adaptabilidade é uma necessidade política. O pluralismo tático permite testar múltiplos caminhos simultaneamente, avaliar resultados e aprender com erros sem paralisar todo o movimento por falhas localizadas.
A questão central não é qual modelo é “mais anarquista” em abstrato, mas qual responde melhor às condições reais de luta. Em um contexto marcado por Estados simultaneamente porosos e repressivos, movimentos sociais heterogêneos e uma tradição anarquista fragmentada, a síntese oferece um grau de estrutura suficiente para a ação coletiva, sem a rigidez que frequentemente se transforma em fator de paralisia.
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