
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
1. Um ponto de partida importante: anarquistas não estão “fora” dos movimentos
Muitas vezes se fala em “inserção social” dos anarquistas. Essa expressão parece simples, mas esconde um problema: ela dá a entender que anarquistas estão fora dos movimentos sociais e precisam entrar neles.
Essa ideia reproduz uma lógica antiga da política autoritária: a divisão entre quem teria consciência política (a vanguarda) e quem precisaria ser organizado ou conduzido (as massas). A síntese anarquista rejeita essa separação.
Anarquistas não se inserem nos movimentos sociais — fazem parte deles. Trabalham em fábricas ocupadas, vivem em periferias ameaçadas de despejo, pertencem a comunidades indígenas, cultivam a terra em assentamentos, organizam cooperativas e ocupações urbanas.
Por isso, a pergunta central não é “como entrar nos movimentos”, mas sim:
como fortalecer as lutas das quais já fazemos parte, mantendo princípios libertários?
2. Interagir não é dirigir
Em algumas correntes anarquistas, como o plataformismo e o especifismo, existe uma separação clara entre:
- a organização anarquista (onde se elabora a política),
- e o movimento social (onde se atua).
Nesse modelo, militantes participam dos movimentos levando análises e estratégias definidas previamente, com o objetivo de influenciar, disputar rumos ou elevar a consciência política.
A síntese anarquista parte de outra compreensão:
os movimentos sociais também produzem conhecimento político.
Comunidades indígenas praticam autogestão há séculos, mesmo sem usar esse nome.
Ocupações urbanas constroem assembleias e decisões coletivas sem ler textos anarquistas.
Catadores organizam cooperativas por necessidade, não por ideologia.
Por isso, a relação da síntese com os movimentos não é:
- pedagógica (“nós ensinamos”),
- nem instrumental (“nós usamos o movimento”).
Ela é dialógica:
anarquistas aprendem com as práticas reais dos movimentos e, ao mesmo tempo, compartilham experiências acumuladas em outras lutas.
3. Identidade flexível, princípios firmes
Na síntese anarquista, os princípios não mudam, mas a forma de expressá-los pode variar conforme o contexto.
Quando faz sentido explicitar a identidade anarquista:
- em espaços amplos de articulação política (plenárias, fóruns, encontros);
- quando há risco de centralização ou autoritarismo;
- diante de tentativas de cooptação por partidos ou pelo Estado;
- ao sistematizar experiências e debates políticos.
Quando não é central enfatizar o rótulo “anarquista”:
- no cotidiano de lutas locais, onde a urgência prática é maior;
- em territórios com linguagens e códigos próprios;
- quando o rótulo cria distância em vez de aproximação;
- em contextos de repressão, onde a exposição aumenta riscos.
Isso não é oportunismo.
Os princípios permanecem: antiautoritarismo, ação direta, autogestão, apoio mútuo.
O que muda é a forma de enunciá-los.
4. Casos concretos de interação
Zapatismo
Os zapatistas raramente se definem como anarquistas, mas praticam autonomia territorial, democracia assembleária, rotatividade de cargos e rejeição ao poder estatal.
Anarquistas que se relacionam com territórios zapatistas não chegam para ensinar. Trabalham juntos, aprendem com a organização comunitária indígena e levam essas experiências para outros contextos.
A síntese permite essa relação sem exigir uniformidade ideológica.
A prática comum é mais importante que o rótulo.
MST e anarquistas
O MST combina elementos horizontais (assembleias, cooperativas, autogestão) com estruturas mais centralizadas.
Anarquistas que vivem ou atuam em assentamentos não rompem com o movimento por discordar de tudo. Participam das assembleias, fortalecem práticas autogestionárias, fazem críticas quando necessário, mas não condicionam solidariedade à adoção de um modelo anarquista puro.
Contribuem onde há convergência e mantêm autonomia onde há divergência.
Ocupações urbanas
Ocupações surgem da necessidade de morar. A autogestão aparece como resposta prática, não como teoria.
Anarquistas que vivem nessas ocupações participam do dia a dia: assembleias, comissões, resolução de conflitos, organização coletiva.
Quando surgem debates sobre aceitar recursos do Estado ou formalizar associações, apresentam críticas e alertas — mas não impõem decisões. A escolha é coletiva. Se discordarem, mantêm crítica interna ou reorganizam sua atuação sem sabotar o processo.
Comunidades quilombolas
Quilombos têm longa história de decisão coletiva, uso comum da terra e resistência ao Estado.
Anarquistas que apoiam essas lutas precisam reconhecer que não têm monopólio da ideia de autonomia. O apoio pode ser material, técnico ou político — mas não de imposição ideológica.
Não se trata de “levar anarquismo”, mas de fortalecer práticas comunitárias já existentes.
5. Tensões reais e como lidar com elas
Lideranças
Movimentos produzem lideranças naturalmente. A síntese não exige que elas desapareçam, mas trabalha para que não se tornem privilégios permanentes.
Defende:
- rotatividade,
- revogabilidade,
- decisões coletivas.
Critica sem romper automaticamente.
Relação com o Estado
Muitos movimentos negociam com o Estado por necessidade. A síntese mantém crítica a essa relação, mas não abandona a luta por discordância tática.
Atua fortalecendo os espaços autônomos do movimento, sem submeter tudo à lógica institucional.
Partidos políticos
A presença de partidos é uma realidade. A síntese não abandona movimentos por isso.
Disputa politicamente, denuncia tentativas de controle e fortalece a autonomia. Se um movimento se torna totalmente controlado por um partido, avalia se ainda há espaço de resistência ou se é melhor atuar em outros lugares.
6. Síntese não é basismo
Valorizar movimentos de base não significa idealizá-los. Movimentos podem reproduzir machismo, racismo e autoritarismo.
A síntese reconhece os limites, mas identifica nas práticas de autogestão sementes de uma sociedade libertária, construídas no presente — não apenas prometidas para o futuro.
7. Um cuidado necessário: não se dissolver politicamente
Flexibilidade tem limites. Se anarquistas se diluem completamente nos movimentos, perdem capacidade de contribuir de forma específica.
A síntese busca equilíbrio entre:
- participação real nas lutas,
- manutenção de coletivos anarquistas próprios,
- articulação entre diferentes frentes de atuação.
8. Por que essa abordagem faz sentido na América Latina
Movimentos latino-americanos não esperam vanguardas iluminadas. Falam em:
- “caminhar perguntando”,
- “pedagogia da luta”,
- “mandar obedecendo”.
A síntese dialoga com essas práticas porque entende que autonomia não é importada, mas construída nas condições concretas de cada luta.
Essa postura gera confiança. Movimentos percebem a diferença entre quem quer usar a luta para construir uma organização política e quem quer construir junto, mesmo que nunca se chame de anarquista.





