
Por Akracia – Fenikso Nigra
A relação entre anarquismo e sindicalismo é historicamente complexa. O sindicalismo revolucionário foi, por décadas, a principal estratégia anarquista de organização operária. Ao mesmo tempo, sindicatos tendem à burocratização, à negociação com patrões e à integração às estruturas estatais. Essa tensão nunca deixou de existir.
A síntese anarquista não prescreve um modelo único de atuação sindical. Parte do princípio de que contextos distintos exigem táticas distintas: sindicalismo de base, oposições sindicais, organização por local de trabalho fora das estruturas formais ou até a recusa completa do sindicalismo.
Sindicalismo revolucionário: potências e limites
O sindicalismo revolucionário propõe que sindicatos operários sejam simultaneamente instrumentos de luta imediata — por melhores salários e condições — e embriões da sociedade futura. A greve geral apareceria como ensaio para a expropriação definitiva, enquanto federações sindicais substituiriam o Estado após a revolução.
Essa estratégia mostrou força em contextos específicos: indústria concentrada, classe operária numerosa e combativa, e relativa fraqueza do Estado. A CNT espanhola, a IWW nos Estados Unidos e a FORA argentina expressaram esse modelo.
Seus limites, porém, surgiram cedo: burocratização, dirigentes convertendo-se em camada privilegiada, negociações esvaziando a radicalidade, cooptação estatal. Conquistas econômicas nem sempre se traduziram em avanço revolucionário.
Contexto atual: precarização e fragmentação
O mundo do trabalho mudou profundamente. Informalidade massiva, terceirização e uberização fragmentam a classe trabalhadora. Sindicatos tradicionais representam uma parcela cada vez menor dos trabalhadores e, em muitos casos, operam como aparelhos burocráticos próximos a governos e patronato.
Na América Latina, esse quadro é ainda mais acentuado. Grande parte da força de trabalho está fora de vínculos formais. Ambulantes, entregadores por aplicativo, trabalhadoras domésticas e catadores raramente são alcançados pelo sindicalismo tradicional.
Insistir no sindicalismo revolucionário clássico, nesse cenário, soa anacrônico. Mas abandonar completamente a organização no local de trabalho seria uma forma de deserção.
Táticas diversas para realidades diversas
Sindicalismo de base. Onde sindicatos existem, mas estão burocratizados, é possível construir organização de base: comissões de fábrica, assembleias por setor, ações diretas independentes da direção. Não se rompe necessariamente com o sindicato, mas cria-se poder de base dentro dele.
Oposições sindicais. Disputar sindicatos por dentro, elegendo direções mais combativas e democratizando estruturas. Há riscos evidentes — eleitoralismo, reformismo, cooptação —, mas também a possibilidade de dialogar com trabalhadores pouco acessíveis à propaganda anarquista direta.
Organização autônoma no local de trabalho. Grupos que se organizam fora e contra sindicatos burocratizados, realizando paralisações e ações diretas sem mediação institucional. São mais ágeis e menos institucionalizados, mas também mais expostos à repressão e à descontinuidade.
Recusa do sindicalismo. Em certos contextos, o trabalho sindical pode ser inviável ou contraproducente. Nesses casos, pode fazer mais sentido priorizar organização territorial, cooperativas ou movimentos sociais amplos.
A síntese anarquista articula essas possibilidades sem hierarquizá-las. Numa federação sintetista, podem coexistir grupos atuando em metalúrgicas, organizando entregadores de aplicativo ou estruturando cooperativas de catadores. O que compartilham não é um modelo único, mas princípios e experiências.
Sindicalismo e outras lutas
Um erro histórico do sindicalismo revolucionário foi centralizar excessivamente a luta operária fabril, ignorando opressões que não cabiam na categoria “trabalhador”. Racismo, machismo, colonialismo e destruição ambiental não eram secundários, mas estruturais.
A síntese reconhece que a exploração no trabalho é central, mas não exclusiva. Uma trabalhadora doméstica enfrenta simultaneamente exploração de classe, opressão de gênero e racismo. Um entregador uberizado sofre precarização, mas também vigilância algorítmica que ultrapassa a relação patrão-empregado clássica.
A organização no trabalho precisa dialogar com lutas antirracistas, feministas, territoriais e ecológicas. Não se trata de subordinar umas às outras, mas de articulá-las.
Greve e ação direta
A greve segue sendo uma ferramenta poderosa: paralisa a produção, atinge lucros e exercita solidariedade coletiva. Mas não é a única forma de luta no trabalho.
Sabotagem, ocupações, expropriações e boicotes podem funcionar como táticas complementares, dependendo do contexto e da correlação de forças. A síntese não sacraliza nenhuma forma de ação: valoriza a diversidade tática orientada por análise concreta da situação.
Relação com sindicatos burocráticos
Sindicatos controlados por burocracias ou fortemente atrelados ao Estado frequentemente bloqueiam a auto-organização operária. Ainda assim, ignorá-los por completo pode significar abandonar trabalhadores que ainda se referenciam nessas estruturas.
Onde há base real, pode valer a pena disputar, construir oposições e criar estruturas paralelas. Onde o sindicato é mera fachada, talvez seja mais produtivo iniciar formas autônomas desde o começo.
Limites da organização por local de trabalho
O trabalho não é o único espaço de exploração. Ela se estende ao lar, ao território e ao consumo. Ganhos salariais podem ser anulados por aluguéis mais altos ou endividamento.
Por isso, a organização no trabalho precisa se articular a lutas territoriais, cooperativas de consumo e resistências antiespeculação. Sem essa conexão, as lutas tendem à fragmentação.
Por que o pluralismo sindical importa
A América Latina reúne trajetórias sindicais muito distintas: tradição anarcossindicalista na Argentina, sindicalismo estatal-corporativista no Brasil, sindicatos ligados a partidos hegemônicos no México. Não há receita universal.
O pluralismo estratégico permite experimentar, aprender com erros e acertos locais e evitar que o fracasso de uma tática paralise o conjunto do movimento.
Não existe forma única correta de organizar trabalhadores. O que pode permanecer são princípios: autonomia, ação direta, democracia de base e solidariedade internacionalista.
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