A SÍNTESE ANARQUISTA COMO GUARDA-CHUVA LIBERTÁRIO

O anarquismo não constitui sistema fechado, doutrina única ou manual de instruções pronto para aplicação em qualquer lugar. Trata-se de tradição política viva, plural e em constante transformação, marcada por múltiplas vertentes que compartilham um mesmo horizonte: a superação de toda forma de dominação, a construção da autogestão coletiva e a organização social baseada no apoio mútuo, na horizontalidade e no federalismo.

Ao longo de sua história, o anarquismo desenvolveu diferentes caminhos para perseguir esse horizonte. Algumas vertentes enfatizam a organização no mundo do trabalho; outras privilegiam a vida comunitária, a ecologia, a cultura, o feminismo libertário ou a autonomia individual. Nenhuma delas esgota, por si só, a riqueza do projeto libertário. Cada qual representa leitura particular de um mesmo tronco comum.


O que é a síntese anarquista?

A síntese anarquista surgiu na década de 1920, principalmente a partir das experiências e elaborações de Sébastien Faure, na França, e Voline, no contexto da Rússia pós-revolucionária e da Guerra Civil. Diante de divisões internas que fragmentavam o movimento libertário, essas figuras propuseram forma de articulação capaz de reconhecer a diversidade como força, não como problema.

Em vez de exigir linha única, programa rígido ou identidade homogênea, a síntese oferece espaço comum capaz de abrigar diferentes vertentes sob princípios compartilhados: anti-autoritarismo, autogestão, solidariedade e decisão de baixo para cima. Por isso, pode ser compreendida como grande guarda-chuva libertário — não estrutura centralizada que comanda, mas federação aberta que conecta, protege e possibilita diálogo entre experiências distintas.


Pluralismo estratégico e antidogmatismo

Essa perspectiva dialoga diretamente com abordagens pluralistas inspiradas em pensadores como Paul Feyerabend. Feyerabend demonstrou, a partir da história da ciência, que não existe método científico único capaz de dar conta de toda realidade. Galileu, Newton e Einstein avançaram não por seguir regras rígidas de maneira dogmática, mas por tensionar e, quando necessário, transgredir cânones metodológicos, adaptando-se criativamente a problemas concretos.

De modo semelhante, a síntese parte da premissa de que não há estratégia anarquista universal válida para qualquer contexto. Diferentes realidades exigem diferentes táticas. Comunidades rurais enfrentam desafios distintos daqueles vividos por coletivos urbanos; territórios indígenas possuem dinâmicas próprias que não podem ser reduzidas a modelos importados; sindicatos operam em condições diferentes das cooperativas autogestionárias ou das ocupações por moradia.

A síntese, portanto, adota postura antidogmática: recusa modelos únicos, valoriza aprendizagem pela prática, experimentação coletiva e adaptação às condições concretas de cada território. Isso não implica relativismo político irrestrito, mas fidelidade a princípios libertários combinada com flexibilidade prática. Sua lógica privilegia autonomia local articulada à coordenação solidária, permitindo que práticas variadas coexistam sem anular diferenças.


Síntese, especifismo e plataformismo: convergências e diferenças

Frente a propostas organizativas mais definidas, como o especifismo ou o plataformismo, a síntese não nega a importância de organização política estruturada. Reconhece, inclusive, que em certos contextos a unidade tática e programática pode ser necessária para enfrentar adversários poderosos.

A diferença reside na forma. Enquanto o plataformismo prioriza unidade tática e responsabilidade coletiva por meio de acordos programáticos claros, e o especifismo enfatiza inserção social em movimentos de massa com linha política definida, a síntese adota estrutura mais flexível e inclusiva. Seu foco desloca-se da uniformidade estratégica para a convergência solidária entre práticas diversas.

Na prática, isso significa que organização de síntese pode abrigar tanto quem prioriza trabalho sindical quanto quem atua em hortas comunitárias, tanto quem organiza ocupações urbanas quanto quem desenvolve educação popular ou arte engajada — desde que todas essas práticas compartilhem princípios libertários e mantenham diálogo horizontal.

A crítica frequentemente dirigida à síntese é que estruturas muito flexíveis podem carecer de capacidade de ação coordenada em momentos decisivos. De fato, quando confrontos políticos exigem resposta rápida e unificada, a diversidade interna pode gerar lentidão ou dispersão. A síntese responde a isso argumentando que sua força não está na velocidade de reação centralizada, mas na resiliência de redes descentralizadas: se um nó é atacado, outros seguem operando; se uma tática fracassa, outras continuam sendo experimentadas.


Por que a síntese é relevante para a América Latina?

Essa capacidade adaptativa torna a síntese especialmente relevante para a América Latina, região marcada por desigualdades históricas, herança colonial, conflitos territoriais, resistência indígena, lutas urbanas por moradia, trabalho precarizado e crises ambientais.

Aqui, a colonialidade não constitui apenas passado, mas estrutura presente que atravessa relações de trabalho, acesso à terra, racismo e epistemicídio. Povos originários mantêm formas próprias de organização comunal que antecedem historicamente o anarquismo europeu, mas dialogam profundamente com seus princípios. Movimentos urbanos por moradia desenvolvem autogestão na prática, muitas vezes sem se autodenominar anarquistas. Trabalhadoras informais criam redes de apoio mútuo para enfrentar a precarização cotidiana.

A síntese possibilita articulação entre essas experiências sem impor identidade política única ou subordinar saberes locais a teorias importadas. Permite que coletivos urbanos, comunidades camponesas, povos originários, sindicatos combativos, cooperativas autogestionárias e iniciativas culturais populares conversem horizontalmente, aprendam uns com outros e construam lutas comuns respeitando autonomias específicas.

Essa abertura não significa ausência de conflitos ou contradições internas. Significa, antes, criar espaços onde esses conflitos possam ser elaborados por meio do diálogo, e não da imposição. Significa reconhecer que a diversidade de táticas e perspectivas resulta da diversidade de opressões e territórios, não de falha a ser corrigida.


O que virá nesta série

Ao longo desta série, serão explorados:

  • As origens históricas: como Sébastien Faure, Voline e outras figuras formularam a síntese no contexto das disputas internas do movimento anarquista europeu das décadas de 1920 e 1930, e como essas ideias circularam pela América Latina.
  • Bases teóricas e organizativas: quais princípios sustentam a síntese, como ela articula autonomia e coordenação, e quais formas organizativas concretas assume na prática.
  • Diálogos e tensões com outras vertentes: aprofundamento das convergências e divergências com plataformismo, especifismo, insurrecionalismo e anarquismo social, mostrando que essas diferenças não são apenas teóricas, mas envolvem escolhas práticas sobre como construir poder popular.
  • Potencialidades e limites: avaliação honesta de onde a síntese demonstra força (resiliência, inclusividade, adaptabilidade) e onde enfrenta desafios (dispersão, dificuldade de ação coordenada em momentos críticos, risco de diluição política).
  • Experiências contemporâneas: análise de casos concretos de organizações de síntese na América Latina, suas conquistas, dificuldades e aprendizados, evidenciando como teoria se traduz em prática viva.

Esta série parte de convicção simples: a liberdade não floresce a partir de modelos rígidos, mas de práticas coletivas capazes de aprender, adaptar-se e criar caminhos comuns sem apagar a pluralidade que lhes dá vida. A síntese anarquista, com todos seus limites e contradições, oferece horizonte de articulação política que merece ser conhecido, debatido e testado na prática.

Textos da série:

Síntese anarquista e sua relação com os movimentos sociais

Síntese versus especifismo e plataformismo – diferenças operacionais

Como funciona a síntese na prática: federação, autonomia e coordenação

Onde nasce a síntese: conflitos, encontros e aprendizado coletivo

Síntese Anarquista: caminhos que convergem em liberdade

Síntese Anarquista – Voline