
Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra
O sistema de saúde no Brasil enfrenta desafios estruturais que afetam principalmente as pessoas mais pobres. Filas longas, falta de medicamentos, atendimento precário e a distância entre serviços e comunidades periféricas tornam o acesso à saúde um privilégio, não um direito. Ao mesmo tempo, o conhecimento médico permanece centralizado em instituições e especialistas, afastando as pessoas da capacidade de cuidar de si e de suas comunidades. A saúde comunitária propõe outra abordagem: horizontal, acessível e baseada no apoio mútuo.
A perspectiva libertária entende saúde como responsabilidade coletiva, não como mercadoria ou serviço controlado pelo Estado. Defende que as comunidades podem organizar formas próprias de cuidado, valorizando saberes populares, medicina tradicional e práticas preventivas. Isso não significa rejeitar a medicina científica, mas integrá-la com outros conhecimentos, sempre sob gestão das próprias pessoas.
Na prática, iniciativas de saúde comunitária já existem em diversos territórios. Grupos de moradores organizam mutirões de prevenção, rodas de conversa sobre saúde mental, oficinas de primeiros socorros e redes de apoio para pessoas com doenças crônicas. Farmácias vivas cultivam plantas medicinais e compartilham receitas tradicionais, resgatando saberes que foram desvalorizados pela lógica farmacêutica industrial.
Experiências históricas demonstram a força desse modelo. Durante a Revolução Espanhola, coletivos anarquistas organizaram clínicas autogeridas onde profissionais de saúde trabalhavam junto às comunidades, tomando decisões em assembleia. Na América Latina, povos indígenas mantêm sistemas próprios de cuidado há séculos, combinando ervas, rituais e conhecimento empírico sobre o corpo. Essas práticas resistem apesar da imposição de modelos médicos ocidentais.
No Brasil, agentes comunitários de saúde, parteiras tradicionais e benzedeiras exercem papel fundamental, especialmente em áreas rurais e periferias urbanas. Seu trabalho, muitas vezes invisibilizado, sustenta a saúde de populações inteiras. Reconhecer e fortalecer essas práticas é essencial para ampliar a autonomia.
A saúde comunitária também envolve prevenção através da transformação das condições de vida. Saneamento básico, moradia digna, alimentação adequada e ambientes sem poluição são determinantes de saúde mais eficazes que muitos tratamentos. Organizar mutirões para limpar rios, criar hortas coletivas, pressionar por melhorias no bairro e construir espaços de lazer são ações de saúde pública realizadas pelas próprias comunidades.
Praticar o cuidado mútuo significa criar redes de apoio concretas. Grupos de pessoas com condições similares trocam experiências, informações e ajuda prática. Rodas de gestantes, coletivos de saúde mental, brigadas de redução de danos e equipes comunitárias de emergência são exemplos de organização horizontal do cuidado.
Transformar a saúde não depende apenas de políticas governamentais. Começa quando vizinhos se organizam para cuidar uns dos outros, compartilham conhecimentos sobre tratamentos e prevenção, e constroem alternativas aos modelos excludentes. Cada iniciativa comunitária fortalece a autonomia e demonstra que o cuidado pode ser coletivo, solidário e efetivo.
Cuidar em comunidade é reconhecer que a saúde de cada pessoa está ligada à saúde de todas. É construir relações onde ninguém fica sozinho diante da doença ou do sofrimento.
Na luta somos pessoas dignas e livres!





