Por Expressões Anarquistas – Fenikso Nigra

A herança que nos prende

Existe no Brasil uma história antiga de concentração de poder. Famílias políticas controlam municípios, estados e até cadeiras no Congresso por gerações. Esse padrão tem um nome: coronelismo. E ele não ficou no passado – apenas mudou de roupa.

Essas dinastias políticas não governam sozinhas. Elas se entrelaçam com grandes grupos econômicos que também resistem a mudanças. Juntas, formam uma rede de poder que mantém as coisas como estão, mesmo quando isso prejudica a maioria das pessoas.

Como isso afeta nossa vida

Pode parecer distante, mas esse sistema toca o cotidiano de cada pessoa:

Na comida que chega à nossa mesa, o modelo agrícola dominante privilegia grandes propriedades que usam agrotóxicos proibidos em outros países e avançam sobre florestas. A ciência aponta caminhos mais saudáveis e sustentáveis, mas grupos com poder político bloqueiam mudanças que ameaçariam seus lucros.

Nos serviços públicos, recursos que deveriam beneficiar toda a população são desviados para alimentar redes de favores e manter bases eleitorais dependentes. Escolas, postos de saúde e infraestrutura ficam pelo caminho.

Na economia, setores inteiros resistem a inovações que poderiam melhorar a vida das pessoas consumidoras, porque isso ameaçaria oligopólios estabelecidos. Pagamos mais caro por menos qualidade.

No conhecimento, cientistas que pesquisam alternativas sustentáveis enfrentam intimidação e corte de recursos. Dados que contrariam interesses poderosos são desacreditados. O conhecimento que poderia nos libertar é silenciado.

Um sistema que se protege

O que torna esse problema tão persistente é como ele se autopreserva. Grupos políticos e econômicos estabelecidos criam barreiras contra qualquer mudança real:

  • Leis eleitorais que favorecem quem já está no poder
  • Controle sobre máquinas públicas usadas para fins privados
  • Alianças entre poder político e econômico que se protegem mutuamente
  • Violência e intimidação contra quem propõe alternativas
  • Manipulação da informação para manter populações desinformadas

Enquanto esperamos que esse sistema se reforme por dentro, gerações passam sem ver transformação real. A pergunta então se torna: precisamos mesmo esperar?

Outros caminhos são possíveis

Existe uma tradição de pensamento e prática que propõe algo diferente: a autogestão. Em vez de esperar que autoridades decidam por nós, podemos nos organizar diretamente para resolver nossos problemas coletivos.

Isso não é utopia distante. Já acontece em diversos lugares e contextos.

Princípios da autogestão

Ação direta: resolver problemas através de organização horizontal, sem depender de intermediários políticos ou burocráticos.

Ajuda mútua: criar redes de apoio onde pessoas se ajudam com base em solidariedade, não em troca de votos ou favores.

Democracia direta: decisões tomadas por quem será afetado por elas, através de assembleias e consenso, não por representantes distantes.

Autonomia local: comunidades tendo controle real sobre questões que as afetam diretamente.

Federalismo: quando necessário coordenar em escala maior, fazer isso através de delegados com mandatos revogáveis, não políticos profissionais.

Práticas concretas de autonomia

Na alimentação

Hortas comunitárias: grupos de bairro transformam espaços vazios em áreas de cultivo coletivo. Todos participam do trabalho e compartilham a colheita. Além de alimentos saudáveis, criam laços de comunidade.

Grupos de consumo responsável: pessoas se organizam para comprar diretamente de agricultores familiares que praticam agroecologia, cortando intermediários e apoiando produção sustentável.

Feiras livres autogeridas: produtores locais se organizam sem atravessadores, vendendo diretamente a preços justos.

Bancos de sementes comunitários: preservação de variedades locais sem depender de grandes empresas, com troca livre entre agricultores.

Na economia

Cooperativas de trabalho: em vez de patrões e empregados, trabalhadoras e trabalhadores são donos do próprio negócio, decidindo coletivamente sobre produção, repartição de ganhos e condições de trabalho.

Moedas sociais e clubes de troca: sistemas locais de economia solidária que fortalecem comunidades sem depender exclusivamente do dinheiro oficial.

Fundos rotativos solidários: grupos que juntam pequenas quantias para emprestar a quem precisa, sem juros bancários, com decisões coletivas sobre uso dos recursos.

Ocupações produtivas: fábricas recuperadas por trabalhadoras e trabalhadores que assumem a gestão quando proprietários abandonam o negócio.

Na moradia

Ocupações organizadas: famílias sem teto ocupam prédios abandonados e os transformam em moradia digna, com gestão coletiva dos espaços.

Mutirões de construção: comunidades se organizam para construir ou reformar casas cooperativamente, compartilhando trabalho e recursos.

Ecovilas: comunidades intencionais que combinam moradia com práticas sustentáveis e decisões por consenso.

Na educação

Escolas democráticas: estudantes participam das decisões sobre o que e como aprender, sem hierarquia rígida entre docentes e estudantes.

Cursinhos populares: jovens organizam preparação para vestibular gratuita, sem fins lucrativos, gerida coletivamente.

Bibliotecas comunitárias: espaços de leitura criados e mantidos por moradores, sem depender de políticas públicas.

Universidades populares: espaços de formação política e técnica autogeridos, com conhecimento compartilhado livremente.

Na saúde

Farmácias vivas: cultivo comunitário de plantas medicinais e compartilhamento de conhecimento sobre medicina popular.

Grupos de apoio mútuo: pessoas com condições similares se encontram para trocar experiências e suporte emocional.

Brigadas de saúde: equipes voluntárias de primeiros socorros em manifestações e comunidades periféricas.

Na comunicação

Mídias livres: coletivos que produzem jornalismo independente, sem patrões ou anunciantes que direcionem a linha editorial.

Rádios comunitárias: emissoras geridas por comunidades locais, dando voz a quem normalmente não tem.

Redes sociais descentralizadas: plataformas sem donos corporativos, geridas democraticamente por quem usa.

Na cultura

Centros culturais autogeridos: espaços ocupados e mantidos por coletivos artísticos, com programação decidida por quem frequenta.

Saraus comunitários: encontros culturais organizados horizontalmente, onde todas as pessoas podem participar.

Bibliotecas itinerantes: projetos que levam livros a periferias sem depender de estruturas oficiais.

Como começar

Transformar tudo de uma vez é impossível e até indesejável – mudança real acontece passo a passo, com aprendizado no caminho.

Passos iniciais

  1. Identificar necessidades coletivas no seu bairro, local de trabalho ou estudo. O que falta? O que poderia melhorar?
  2. Encontrar aliados e aliadas: conversar com vizinhos, colegas, pessoas que compartilham preocupações similares.
  3. Começar pequeno: não é necessário revolucionar tudo de uma vez. Uma horta, um grupo de estudos, uma roda de conversa já são começos.
  4. Aprender fazendo: erros vão acontecer. A questão é refletir sobre eles coletivamente e ajustar o caminho.
  5. Conectar-se com outros grupos: trocar experiências com quem já pratica autogestão acelera o aprendizado.
  6. Documentar e compartilhar: registrar o processo ajuda outras pessoas a começarem suas próprias iniciativas.

Princípios para o caminho

Horizontalidade: evitar reproduzir hierarquias que criticamos. Todas as vozes importam nas decisões.

Transparência: processos e recursos devem ser abertos ao conhecimento de quem participa.

Inclusão ativa: buscar deliberadamente incluir pessoas que normalmente ficam de fora – mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+, pessoas com deficiência.

Respeito ao ritmo: nem todo mundo pode dedicar o mesmo tempo ou energia. Organização horizontal acolhe diferentes níveis de participação.

Cuidado coletivo: sustentar iniciativas exige cuidar de quem participa, evitando esgotamento.

Conexão com lutas maiores: experiências locais ganham força quando dialogam com movimentos mais amplos.

Desafios reais

Ser honesto sobre dificuldades é parte da seriedade com que tratamos essas propostas.

Repressão: autoridades frequentemente veem autogestão como ameaça. Ocupações sofrem despejos, cooperativas enfrentam burocracia hostil, manifestantes são criminalizados.

Recursos limitados: sem acesso a financiamento ou estrutura, iniciativas dependem de muito trabalho voluntário, o que pode ser insustentável.

Diferenças internas: grupos autônomos precisam lidar com conflitos sem hierarquia formal para impor decisões. Isso exige maturidade coletiva.

Pressão econômica: em uma sociedade capitalista, cooperativas precisam competir com empresas que exploram trabalho. Isso pode gerar tensões sobre como manter princípios.

Isolamento: experiências isoladas podem se esgotar. A questão é como construir redes de apoio mútuo entre iniciativas.

Cooptação: às vezes o poder estabelecido tenta incorporar práticas autogeridas esvaziando seu potencial transformador.

Reconhecer essas dificuldades não é motivo para desistir, mas para se preparar melhor e criar estratégias coletivas para enfrentá-las.

Por que isso importa agora

O sistema de coronéis políticos e econômicos está nos levando a crises cada vez mais graves:

  • Crise climática acelerada por modelos produtivos insustentáveis
  • Aumento de desigualdade e concentração de riqueza
  • Degradação de serviços públicos
  • Perda de confiança em instituições
  • Violência crescente contra quem defende alternativas

Esperar que esse sistema se reforme por dentro significa aceitar que essas crises se aprofundem. A autogestão não é apenas um ideal bonito – é uma necessidade prática para nossa sobrevivência coletiva.

Exemplos inspiradores

No Brasil

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organiza assentamentos com escolas, saúde e produção geridos coletivamente, provando que agricultura familiar agroecológica é viável em escala.

Fábricas recuperadas por trabalhadoras e trabalhadores, como algumas metalúrgicas e têxteis, mostraram que produção sem patrões funciona.

Ocupações urbanas transformaram prédios vazios em comunidades organizadas com bibliotecas, creches e produção cultural.

Coletivos de comunicação cobrem manifestações e periferias ignoradas pela mídia comercial.

No mundo

As comunidades zapatistas no México governam territórios inteiros com autonomia, educação própria e economia solidária há décadas.

Cooperativas em Mondragón, na Espanha, são exemplo de economia solidária em escala industrial.

A região de Rojava, no norte da Síria, experimenta autogoverno através de assembleias populares e cooperativas mesmo em contexto de guerra.

Okupas na Europa transformaram prédios abandonados em centros culturais autogeridos que duram décadas.

Conclusão: construindo desde já

Romper com a herança dos coronéis não acontecerá através de um evento único ou de esperar eleições. Acontece na construção cotidiana de relações diferentes, onde não precisamos de intermediários para resolver nossos problemas coletivos.

Cada horta comunitária, cada cooperativa, cada espaço autogerido é uma rachadura no sistema que nos domina. São escolas práticas de democracia real, onde aprendemos a decidir juntos, a cuidar do comum, a não depender de patrões ou políticos profissionais.

Essas experiências nos mostram que somos capazes de nos organizar, de produzir, de criar, de viver bem sem hierarquias que nos exploram. E quanto mais essas experiências se multiplicam e se conectam, mais evidente fica que outro mundo não é apenas possível – já está sendo construído.

A questão não é se vamos acabar com o coronelismo esperando que ele se desfaça sozinho. A questão é: que relações vamos construir desde já que tornem o poder deles irrelevante para nossa vida?

Quando comunidades produzem seu próprio alimento, quando trabalhadoras e trabalhadores controlam seus meios de produção, quando bairros resolvem problemas coletivamente, quando o conhecimento circula livremente – o poder dos coronéis enfraquece.

Não se trata de esperar permissão ou condições perfeitas. Trata-se de começar onde estamos, com quem está por perto, resolvendo problemas reais através de organização horizontal e solidariedade.

O futuro que queremos não virá de cima. Será construído por nós, desde baixo, passo a passo, experiência por experiência, até que essas sementes de autonomia cresçam e se espalhem, transformando o possível em real.

A melhor hora para começar foi ontem. A segunda melhor hora é agora.

Rompendo com o poder dos coronéis: caminhos para uma vida autônoma
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